
Rosane de Castro/Janeiro/2011


Passei um domingo na Serra do Lajedo. Aninha me convidou pra uma festa de casamento de um casal parente seu. Cinqüenta anos de casados eles iam fazer, portanto, o acontecimento merecia um festão. Eu nunca havia ido á uma festa no interior, só conhecia de ouvir falar.
Subimos a serra no domingo bem cedinho da manhã, eu, Costa Jr., Aninha e suas irmãs. Ana me disse que o nome verdadeiro é lajeiro, porém, acho que a palavra lajedo se encaixa mais. A palavra deriva de laje, pedra pavimentada, rocha de superfície plana, abundante naquela região.
Fomos por uma estrada de piçarra, de chão seco, árido. A certa altura paramos o carro, descemos e ficamos contemplando a paisagem lá em baixo. Maranguape e Itapebussú despertavam num espreguiçamento que somente quem é nordestino pode compreender. O nordestino não é desses que pula da rede num salto. Primeiro ele se espreguiça lennntamennnte, bem devagarzinho, que nem gato quando acorda, se esticando todo. Depois desse ritual “espriguiçatório”, o dia começa.
Alguém me falou de assaltos na estrada. Os ladrões param o ônibus em plena serra e tomam os poucos pertences dos viajantes. Que triste! O último lugar que se pensa em assalto é numa estrada de terra em cima da serra. Aquele ambiente não tem absolutamente nada a ver com esse tipo de coisa e me impressionou o fato dessas coisas de cidade grande ter chegado até lá. O mal subiu a serra de pedra pavimentada. Lembrei dos salteadores dos quais Jesus fala na parábola do Bom Samaritano. Imaginei o pobre homem da parábola caído naquela estrada solitária e poeirenta e fiquei me perguntando se por ali existia um bom samaritano. Mais tarde, numa situação inesperada e hilariante, descobri que a Serra do Lajedo é habitada por bons samaritanos, sim.

Aninha percebeu meu carinho pelo fogão da sua mãe e me convidou a ir até a casa onde seu pai nasceu e ver um típico fogão à lenha. É que o fogão da Raimundinha foi revestido de cerâmica. Você já viu um matuto de verdade, metido num terno e gravata, no meio do roçado? É o fogão à lenha da Raimundinha. Todo arrumado, todo querendo ser moderno, porém, adornado por aquelas panelas “carimbadas” pelo tempo, amassadas, com resquícios de carvão, que fazem a comida parecer mais gostosa.
A Ana quis me mostrar um original, com a idade de 84 anos, um matuto vestido de matuto. Descemos uma ladeira íngreme, cheia de pedras, por entre o bananal e tocamos pra lá. Que casa maravilhosa surgiu diante dos meus olhos deslumbrados. Absolutamente sertaneja; preservada em quase tudo. Digo em quase tudo, porque quando fomos para a cozinha ver o fogão à lenha já ancião, ele não estava mais lá, não existia mais. Alguém mandou demolir o velhinho. Os olhos da tia da Ana se encheram de lágrimas quando contou como e porque ele foi demolido. O olho dela não via mais o velho fogão e a saudade ruim, aquela que dói, remoia seu peito. Falou do fogão como se fala de um bom amigo, de um bom companheiro que morreu e deixou muitas saudades. Às vezes, o que os olhos não vêem o coração sente dobrado. A casa é linda, mas sem o fogão é como se ela não tivesse alma. Roubaram a alma da pobre casa. Ele se foi e deixou como prova de sua existência o preto da fumaça nas telhas, o cheiro de lenha queimando e embriagando o ar. Pobre casa desfalcada! Como adentrar no céu das iguarias, da comida cheirosa e gostosa sem um fogão à lenha? Mas Deus é Pai, Bom e Misericordioso, pois adornou as mãos da Dona Fransquinha (tia da Ana e moradora da casa) e as fez independente de fogões. Não é que ela nos ofereceu uma galinha caipira com pirão de farinha feito do caldo, daqueles de fazer nego chorar de alegria? E feito num fogão a gás? Que delícia, meu Deus! Depois peguei um caneco de alumínio bem areado, mergulhei no fundo do pote e bebi a água mais gostosa da minha existência. Podia dizer do Salmo 23 “preparas uma galinha caipira para mim na presença dos meus amigos, unges o meu coração de alegria, o meu copo transborda de prazer”.
A ausência do fogão foi compensada pelo restante da casa. Portas com trancas de madeira; piso de antigas lajotas de barro, daquelas que se tem que “aguar” quando o dia tá quente. A pia de lavar louça ainda é a janela da cozinha que dá para o quintal, com a bacia de alumínio sustentada por uma mesa de ripas de madeira. As esponjas de lavar panelas ainda são as buchas vegetais e as cabaças ainda servem de recipientes. “Ainda” é uma palavra que cabe muito bem na velha casa da Serra do Lajedo. Lá, as coisa boas e antigas “ainda” funcionam, menos o velho e saudoso fogão à lenha.
Quando a gente conversa com a dona Fransquinha, a gente entende que modernidade não a impressiona, não a escraviza. Ela é livre. A geladeira está lá e ajuda a preservar os alimentos, mas quando a goela pede água é o pote que reina. E por falar em reinado, bem no alto do monte coberto de bananeiras que fica ao lado da casa, impera soberana e absoluta uma gigantesca rocha, que mais parece um altar judaico. A gente olha para o alto e ela está lá, imponente, soberba, nos lembrando da nossa pequenez. Parece que flutua e temos a impressão que ela poderá rolar na primeira chuvarada que der, mas está lá há anos, escultural e bela. Fiquei com vontade de subir, deitar óleo nela e adorar ao Criador. Jesus diz que devemos construir nossa casa sobre a rocha, pois só assim as tempestades não a derrubam. O avô da Ana levou esse conselho ao pé da letra. A senhora casa de 84 anos foi construída sobre pedras imensas, sobre os lajedos ofertados pela Natureza. A casa é simples. Suas paredes são brancas, seu chão e teto, de barro, matéria-prima que Deus usou para fabricar o Homem, mas seus alicerces são rochas. Parece com aquela pessoa que ama O Senhor de coração. Tem aparência frágil e simples, mas sua vida é alicerçada nos lajedos divinos, na Rocha Viva que está no céu.

Tomamos banho com água congelada (rsrs) e fomos para a festa. Quem já tomou banho com água de caixa d’água em cima da serra, me entende. Eita água fria. Pois bem, tocamos para a festa de casamento. A casa era pequena, mas a quantidade de comida era grande, enorme, macro. Imagine um banquete romano regado a cachaça em vez de vinho. Três carneiros foram sacrificados para o ritual de cinqüenta anos de casamento; fora as galinhas caipiras, as lingüiças e a carne de gado. Sem contar ainda as saladas, arroz e feijão em abundância e frutas, muitas frutas. Se eu fosse chegada a uma cachacinha e forró, tava feita. De longe ouvi o forró troando, mas o que eu queria mesmo era comer numa festa interiorana, ter essa experiência que, confesso, foi inesquecível e agradabilíssima, apesar dos acontecidos. Uma coisa que me impressionou muito foi o fato de a casa estar cheia de gente. Claro que uma festa enche uma casa de gente, principalmente quando se trata de casamento, mas TODO MUNDO ser da mesma família? Peraí! Acho que a única “não-abreu” era eu. Até do meu amigo Costa Jr. desconfiei ser um Abreu, pois a cumplicidade com que ele adentrou a casa foi interessante; parecia que já conhecia o povo, a casa. E começou um festival de “aquela é minha tia, aquele é meu primo, aquela outra, minha prima segunda...”, etc., etc. Era mais fácil saber quem NÃO era da família: eu mesma. Para quem não sabe, vai a dica: em cima da serra do Lajedo tem a “Abreulândia”, terra dos Abreus.
É interessante perceber que nessas festas todo mundo entra, come e bebe. Ninguém se importa, ninguém se preocupa, ninguém desconfia de ninguém. Ninguém quer saber quem é aquele que acabou de chegar, entrou e comeu fartamente, só sabe que é Abreu, isso é o suficiente. A casa é de todo mundo. Todos dividem tudo, inclusive a caneca de tirar água do pote. Contei que na casa da dona Fransquinha tinha um pote com caneca, etc., porém, a caneca é somente para tirar água do pote, não se pode beber nela. Na festa, o sistema era diferente. A caneca tanto servia para tirar água do pote como para beber. E era somente uma caneca. Ali, tive uma aula prática e aprendi o que é cumplicidade. Todo mundo que tava com sede ia ao pote, metia a caneca e bebia. E as crianças? As crianças também e ainda pondo em prática os ensinamentos de que água é coisa valiosa no sertão (principalmente nesses tempos sem chuva), portanto, tem que economizar. Elas bebiam e o que sobejava, devolviam ao pote. Só depois de um tempão foi que observei o fato. Tarde demais! Quando cheguei à festa estava com muita sede e ainda embriagada pelo sabor da água do pote da Dona Fransquinha, pedi um copo d’água toda contente e bebi cheia de alegria. Fazer o quê, né?