Monday, September 15, 2008

Quem é Jesus, afinal?

Sempre leio os Evangelhos. As palavras de Jesus são maravilhosas, carinhosas, ternas, enchem o coração de esperança, mas ao mesmo tempo, são perigosas. Perigosíssimas.Outro dia conversei com alguém que me falou do exagero da Bíblia ao afirmar que Jesus é o Filho de Deus. Essa pessoa me disse que Jesus era um grande líder espiritual, um iluminado, um espírito superior, mas filho de Deus não podia, é exagero.
Aí é que mora o perigo das palavras de Jesus.
Gosto de ler o pensamento das religiões. Gosto de ler, por exemplo, o pensamento hindu de Gandhi, tem muita coisa que aprendi com o mestre indiano, apesar de não concordar com tudo; também gosto de ler o pensamento budista do Dalai Lama, muita coisa tiro para minha vida e, como nasci numa família kardecista, a questão da caridade está entranhada em mim, graças a Deus.
Tem uma coisa que percebo nos grandes mestres religiosos: TODOS falaram sobre salvação, todos se preocuparam em apontar o caminho da salvação, cada um a sua maneira, é claro, mas todos eles foram homens preocupados com o destino da humanidade. Foram sinceros nas suas respectivas religiões.
Dalai Lama e todos os Budas que vieram antes dele, afirmam que para encontrar o Nirvana é preciso se esvaziar dos desejos carnais, ser desapegado dos prazeres mundanos; Gandhi também falou do desapego, da purificação interior para encontrar o paraíso hindu e Kardec, por sua vez, disse que para ser salvo é preciso ser caridoso. TODOS apontaram o caminho da salvação FORA DE SI MESMO. É exatamente aí que as palavras de Jesus me fazem estremecer. Jesus Cristo, igual aos grandes mestres, também pregou o desapego ás coisas materiais, também pregou a purificação da alma, a morte do Ego, só que Ele fez algo absolutamente inusitado e que me mete medo, caso eu esteja errada em crer que Ele é o Filho de Deus, pois eu creio em Jesus pelo que Ele falou e fez nas Escrituras.
Jesus não apontou para fora de si a salvação como os demais, Ele disse: EU SOU o caminho, EU SOU a verdade, EU SOU a vida! Você pode parar um pouco para pensar sobre esta frase? Veja bem, enquanto os outros mestres apontaram para fora de si o caminho da salvação, Jesus disse que ELE é o caminho, que ELE é a verdade. Você não acha que é muita pretensão, caso Jesus não seja quem Ele disse ser? Não é um verdadeiro show de megalomanismo, de egocentrismo, um homem falar que ninguém vai a Deus se não for por Ele? Não é um festival de excentricidade Jesus afirmar que quem amar pai e mãe mais do que a ELE não é digno da salvação? Na cultura judaica, somente Deus está acima de pai e mãe em autoridade, então, o que Jesus quis dizer com isso? Se Jesus realmente não for o Filho de Deus como ELE diz, então Jesus Cristo é o maior mentiroso, egocêntrico e megalomaníaco ser que já apareceu neste planeta, não tendo autoridade nem mesmo para liderar o inferno, porque se tudo isso é mentira, os demônios são mais verdadeiros do que Ele. Se tudo o que Ele falou for mentira, não há absolutamente nada de iluminado em Jesus ou de espírito superior.
E ainda tem mais: foi o único líder espiritual na face da terra que teve a ousadia de perdoar pecados como se fosse o dono da vida daquelas pessoas. Nem os profetas tiveram essa coragem, disseram: "Assim diz o Senhor!", nunca "EU DIGO!". Era O Senhor que estava dizendo, não eles.
As palavras de Jesus Cristo nos obrigam a meditar nelas, a nos ocuparmos em descobrir QUEM realmente é Jesus, O Filho de Deus ou um embusteiro, porque, afinal, se Ele é quem realmente diz ser, então corramos para trilhar esse Caminho que é Ele. Afinal, é a salvação da nossa alma, é a nossa eternidade que está em jogo. Dependendo da nossa escolha, vamos ter MUITO TEMPO para nos alegrar, ou MUITO TEMPO para, tardiamente, nos arrepender.
Á Deus toda Glória!

Saturday, September 06, 2008

Lobby

No livro de Mateus, a mãe de João e Tiago, dois discípulos de Jesus, oportunando-se de estar próxima daquele que diziam ser o Messias esperado pelos judeus, pediu para que seus dois filhos tivessem lugar de honra no reinado que estava por vir (ela não imaginava que era um reinado espiritual). Seu pedido foi que um filho sentasse à esquerda e o outro à direita do trono. Vemos em plena Bíblia um lobbiyng de primeiríssima qualidade.

Fico imaginando se Jesus tivesse aceito tal proposta. Pobre mãe! Mal sabia ela que, caso seu desejo fosse atendido, poderia iniciar uma guerra sangrenta entre seus filhos pelo LADO DIREITO do trono. Havia nela ignorância total sobre o coração humano. Sabiamente, Jesus disse para a lobbysta que ela não sabia o que pedia: "Não sabeis o que pedis!" E não sabia mesmo. Não tinha noção do tamanho do livramento de sofrimento e solidão que Jesus estava lhe dando. A primeira a ser beneficiada com aquela recusa foi ela mesma, pois ficaria só e desfilhada.

Existem orações que um dia vamos agradecer por nunca terem sido atendidas. Mas graças a Deus que temos um lobbysta do qual O Senhor se agrada muito: o Espírito Santo, que intercede por nós com “gemidos inexprimíveis”.

Na verdade, não sei bem o que são esses gemidos inexpremíveis, mas entendo que é uma oração bem feita, uma intercessão que realmente convence o coração de Deus a nosso favor. Quando você for até Deus pedir alguma coisa, expor o seu desejo, não esqueça de dizer que Ele faça a vontade Dele, pois muitas vezes, igual áquela mãe, não sabemos o que pedimos, e a consequência de nossa oração impulsiva e emocional pode ser um preço alto a se pagar.

Pense nisso!

Friday, August 22, 2008

Mentiras Novas

É um saco acordar de manhã com esse festival de gingle político invadindo o sagrado sono. É gingle de todo jeito: forró, pagode, rap, e por aí vai. Mais saco ainda é que a mídia não inventa nenhuma mentira nova, a gente tem que aguentar as velhas e carcomidas lorotas.
Seria bom, pelo menos, acordar com novidades, com mentiras novinhas em folha. Mas não! São as mesmas mentiras cansativas, repetitivas, tediosas. Um desrespeito ao eleitor. Não dá pra inventar uma mentira de qualidade, que iluda poeticamente e nos dê a sensação que existe realmente alguém preocupado com o povo? EU QUERO MENTIRAS NOVAS! Eis a minha reivindicação. Fico indignada. Você acredita que existe um candidato cujo slogan é "quem sabe faz a hora"? Grande novidade, não?

Já não se fazem mentirosos como antigamente. Os mentirosos de antigamente tinham aquele ar de "salvador da pátria", de protetor, passavam uma imagem paterna; a gente só faltava subir no palanque e sentar no colinho deles. Aqueles, sim, sabiam produzir belas e boas mentiras. Só não souberam passar essa arte para a geração que está aí todo dia, adentrando o nosso doce lar com mentiras tão pobrezinhas. Ô geração sem criatividade!

Monday, September 10, 2007

Gotas de Sofia

Acordei cedinho. Era mais ou menos 5:30 da manhã. Assim que acordo gosto de conversar com Deus antes de conversar com qualquer pessoa. Sento na minha cadeira de balanço e abro meu coração para Ele. As vezes fico um tanto quanto confusa sobre essa nossa relação (minha com Deus). Convenhamos, é uma relação desigual. Veja bem, é um ser imperfeito (eu) tentando compreender um Perfeito (Deus); um ser finito querendo ouvir um Infinito; um ser que não tem poder nem pra saber o que vai acontecer daqui a um minuto desejando ter comunhão com um que conhece toda a Eternidade. Não é covardia? Pois bem, o que me dá coragem e ânimo para apostar nessa relação é que a Bíblia diz que esse Deus quis ser mais que Deus, quis ser Pai e Amigo meu, e eu acredito. A Bíblia também diz que Ele não ficou esperando que eu mudasse, que eu me tornasse uma pessoa melhor, que tivesse um caráter perfeito para que Ele pudesse me aceitar, mas a Bíblia diz que Ele quis ser meu Pai e Amigo apesar de todas as minhas debilidades, fraquezas e falhas. E ponha debilidades, fraquezas e falhas nisso. Não sei como Ele ainda não perdeu a paciência comigo; sou reclamona, questionadora, apressada (a
causa de eu "comer cru" muitas vezes) e minha fé não é das melhores. Me surpreende perceber que Ele não desiste de mim e que todas as vezes que eu converso com Ele, a Paz que Ele promete na Bíblia desce imediatamente. É verdade, num é conversa mole, não! Experimente ficar um tempo na presença Dele. Mesmo que o problema demore a ser resolvido, Deus, nosso Pai e Amigo nos dá uma tranquilidade incondicional. Ninguém fica dependendo de ter paz só se o problema for resolvido. A famosa "paz do Senhor" invade o mais turbulento dos corações; a mais atormentada das mentes; e para isso é preciso só ter um tiquinho de fé, num precisa ser coisa muito grande, não. Basta essa fé ser do tamanho de uma semente de mostarda. Você já viu uma semente de mostarda? É do tamanho da cabeça de um alfinete. Jesus diz que se a nossa fé for do tamanho dessa semente, seremos capaz de transportar montanhas. Quando leio essa passagem, imagino Deus com um microscópio tentando enxergar a minha fé e gritando: "Achei!!!! Aqui está a fé da Rosane!" (rrss). Deus quer só um motivozinho pra ajudar, pra curar, pra derramar paz. Aposte nessa relação! Ele não requer coisas impossíveis e cá pra nós, se fosse necessário explicar a questão da fé, não seria fé, seria ciência; e você já pensou nos milhares de anos que isso demoraria? Não conseguimos nem acabar com uma simples gripe através da ciência, imagine encontrar e provar a existência de Deus.

A fé é o meio mais rápido e eficaz para se ter um contato verdadeiro com Deus.
Basta apenas virar criança outra vez.

Thursday, August 16, 2007

Gota de Sofia com Lêdo Ivo - Cama e Mesa

No Banheiro do Cego
amamos sobre tábuas duras.
É o amor sem conforto
de dois animais vivos.
Amamos sem lençol
e sem travesseiro.
O sol que ilumina
nossos gestos obcenos
é a luz do candeeiro.
Ó sol de querosene
nos peitos molengos
de uma peniqueira!
Hei de morrer cativo
a esta lengalenga
que faz mover o sol
- o sol e as estrelas.
Hei de morrer impuro.
Que sabão lavará
a minha infância suja
que nessa comilança
já hoje se lambuza?
Sou um bicho. E me escondo
numa gruta de Vênus.
Sou como os caranguejos
que afundam na lama
dos mangues. E amo
depressa como os galos.
E relincho na noite
igual aos cavalos.
E amo desengonçado
como todos os homens.
Na cama que é uma mesa
no Banheiro do Cego
mato a minha fome.
Tiro a roupa. E como.


Tuesday, August 07, 2007

Gotas de Sofia com C.S.Lewis - Só Um Pedaço de Papel Colorido?

Lembro-me de certa vez quando dei uma palestra para a Força Aérea e que um velho e experiente oficial levantou-se e disse: "Não sei qual a utilidade disso tudo. Veja bem, eu também sou um homem religioso. Sei que há um Deus. Eu o senti quando estava sozinho, no deserto, á noite:um grande mistério. E esta é precisamente a razão porque eu não acredito nos seus dogmas e nas suas fórmulas reducionistas e bem comportadas sobre Deus. Para qualquer um que já o tenha encontrado, tudo isso parace tão mesquinho, pedante e irreal!"
De certa forma eu até concordei com aquele homem. Penso que ele deve ter tido alguma experiência real com Deus no deserto. E quando ele voltou dessa experiência para os credos cristãos, acredito que ele voltou de algo real para algo menos real. Assim, também, se uma pessoa olha da praia para o oceano Atlântico e, depois olha o Atlântico no mapa, ele também estará voltando de algo real para alguma coisa menos real: das ondas do mar para um pedaço de papel colorido. Mas é aí que está o ponto. O mapa é reconhecidamente um pedaço de papel colorido, mas há duas coisas que você deve lembrar. Primeiro, ele é baseado no que milhares de pessoas descobriram navegando o Atlântico de verdade. Dessa forma, um indíviduo tem atrás de si milhares de experiências tão reais quanto a que você poderia ter tido na praia; com a diferença de que, enquanto a sua seria um vislumbre único, o mapa dá conta de todas as variadas experiências juntas. Segundo, se você quer chegar a algum lugar, o mapa é absolutamente necessário. Para quem está interessado em apenas fazer algumas caminhadas na praia, a visão de tudo é muito mais agradável do que olhar para um mapa. Acontece que o mapa terá mais utilidade do que as caminhadas pela praia se você deseja chegar a outro continente.
A teologia é como um mapa - nada mais do que aprender e pensar sobre as doutrinas cristãs. Ficar nisso é menos real e menos emocionante do que o que aconteceu com o meu amigo no deserto. As doutrinas não são Deus; elas não passam de uma espécie de mapa. Acontece que esse mapa é baseado na experiência de centenas de pessoas que realmente estiveram em contato com Deus; experiências comparadas com quaisquer emoções ou sentimemtos piedosos que você e eu poderíamos experimentar, considerados elementares e até confusos. Se você quiser chegar mais longe, terá de usar o mapa. Veja bem, o que aconteceu com meu amigo no deserto pode ter sido verdadeiro, e certamente foi empolgante, mas isso não resulta em nada. Não há nada que se possa fazer a respeito. Na verdade, eis aí a razão por que uma religião vaga, algo como sentir Deus na natureza e assim por diante, é tão atraente. É só emoção, sem qualquer trabalho; é como observar as ondas do mar a partir da praia. Mas você jamais chegará a outro continente estudando o oceano Atlântico dessa maneira, e jamais conhecerá Deus só sentindo a Sua presença nas flores e na música. Nem chegará a lugar nenhum apenas olhando os mapas, sem ir para o mar. Tampouco estará seguro se entrar no mar sem um mapa.

Monday, July 30, 2007

Gotas de Sofia...

Todos nós conhecemos as quatro estações: Primavera, Verão, Outono e Inverno. É sabido também que cada estação traz um modo de vida diferente. No verão, por exemplo, não nos comportamos como nos comportamos no inverno; o consumo de água aumenta quase 100%, vamos mais á praia, vestimos roupas mais leves e saímos mais para passeios.
Já no inverno é diferente, nos recolhemos mais em casa, sentimos mais sono,
nos vestimos com roupas quentes, etc..
Na vida espiritual acontece o mesmo. Passamos por "estações" diferentes. Existem invernos, verões, outonos e primaveras. A mais temida dessas estações é o inverno espiritual. Tempestades como desemprego, enfermidade, perda de um ente querido, pode, de uma hora para outra, assolar a vida, tornando-a insuportável.
Apesar de tudo, o inverno passa e no final vem o resultado maravilhoso: fartura de comida, água que enche açudes e rios, e muitas outras bênçãos que só chegam depois de uma boa invernada.
É incrível, mas só nascem flores, frutos e há água em abundância, se houver inverno. O mesmo acontece no reino espiritual. É assim que crescemos, que amadurecemos e conseguimos vitórias maravilhosas. Tempo de inverno é tempo de plantar. Não desista dos seus sonhos, por mais difícil que esteja, por mais frio que faça na sua alma. Aqueça-se nos braços de Jesus e não esmoreça. O Salmo 126 nos promete: "aquele que leva a preciosa semente, andando e chorando, voltará com alegria, trazendo consigo os seus molhos."

Gotas de Sofia com Carlos Drummond - Prece do Brasileiro

Meu Deus,
Só me lembro de vós para pedir,
mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
Desculpai vosso filho, que se veste
de humildade e esperança
e vos suplica: Olhai para o Nordeste
onde há fome, Senhor, e desespero
rondando nas estradas
entre esqueletos de animais.
Em Iguatu, Parambu, Baturité,Tauá
(vogais tão fortes não chegam até vós?)
vede as espectrais
procissões de braços estendidos,
assaltos, sobressaltos, armazéns
arrombados e - o que é pior - não tinham nada.
Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
aquela que, florindo e reflorindo, soa
qual cantada de Bach em vossa glória
e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
ao pobre sertanejo destruído no que tem de mais doce e mais cruel:
a terra estorricada sempre amada.
Fazei chover, Senhor, e já! numa certeira
ordem às nuvens.
Ou desobedecema vosso mando, as revoltosas?
Tudo é pois contestação?
Fosse eu Vieira (o padre)
e vos diria, malcriado muitas e boas...mas sou vosso fã
omisso, pecador, bem brasileiro.
Comigo é na macia, no veludo/lã
e matreiro, rogo, não
ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
mas ao Deus que Bandeira, com carinho
botou em verso: "meu Jesus Cristinho".
E mudo até o tratamento: por que vós,
tão gravata e colarinho,
tão vossa excelência?
O você comunica muito mais
e se agora o trato de você,
ficamos perto, vamos papeando
como dois camaradas bem legais,
um puro; o outro, aquela coisa,
quase que maldito
mas amizade é isso mesmo: salta
o vale, o muro, o abismo do infinito.
Meu querido Jesus, que é que há?
Faz sentido deixar o Ceará
sofrer em ciclo a mesma eterna pena?
E você me responde suavemente:
Escute, meu cronista e meu cristão:
essa cantiga é antiga
e de tão velha não entoa não.
Você tem a Sudene abrindo frentes
de trabalho de emergência, antes fechadas.
Tem a ONU, que manda toneladas
de pacotes à espera de haver fome.
Tudo está preparado para a cena
dolorosamente repetida
no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.
No entanto, você sabe,
você lê os jornais, vai ao cinema, até um livro de vez em quando lê
se o Buzaid não criar problema:
Em Israel, minha primeira pátria
(a segunda é a Bahia)
desertos se transformam em jardins
em pomares, em fontes, em riquezas.
E não é por milagre:
obra do homem e da tecnologia.
Você, meu brasileiro,
não acha que já é tempo de aprender
e de atender àquela brava gente
fugindo à caridade de ocasião
e ao vício de esperar tudo da oração?
Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.
Fiquei, confesso, muito encabulado,
mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
é balda que carrego aqui comigo.
Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.
Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar
noutro caso, mais sério, mais urgente.
Escute aqui, ó irmãozinho.
Meu coração, agora, tá no México
batendo pelos músculos de Gérson,
a unha de Tostão, a ronha de Pelé,
a cuca de Zagalo, a calma de Leão
e tudo mais que liga o meu país
e uma bola no campo e uma taça de ouro.
Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça
sem milagres ou com ele nos pertença
para sempre, assim seja...Do contrário
ficará a Nação tão malincônica,
tão roubada em seu sonho e seu ardor
que nem sei como feche minha crônica.

30 de maio de 1970.

Tuesday, July 17, 2007

Gotas de Sofia com T.S. Eliot


A Áquila paira no topo dos Céus,
O Órion, com seus cães, percorre o seu circuito.
Ó revolução perpétua de estrelas fixas,
Ó eterno retorno das mesmas estações,
Ó mundo de primavera e outono, de nascer e morrer!
O círculo sem fim de idéia e ação.
De invenção sem fim, de experimentação sem fim,
Traz conhecimento do movimento, mas não da tranquilidade;
Conhecimento da língua, mas não do silêncio;
Conhecimento de palavras, e ignorância da Palavra.
Todo o nosso conhecimento nos leva mais próximos da nossa ignorância,
Toda a nossa ignorância nos leva para mais perto da morte,
Mas uma proximidade da morte que não é proximidade de Deus.
Onde está a vida que perdemos no viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?
Os círculos dos Céus em vinte séculos
Levam-nos para mais longe de Deus e para mais perto do pó.

Monday, July 16, 2007

Gotas de Sofia - Bebível Adélia

Acabei de ler agora mesmo Adélia Prado: “Uma ocasião/meu pai pintou a casa toda de alaranjado brilhante/Por muito tempo moramos numa casa/como ele mesmo dizia/constantemente amanhecendo.”
Não é maravilhosa? Chama-se “Impressionista”. Leio e releio este poema que de tão simples, tornou-se profundo. Lembra muito as “cacimbas” (é cacimba mesmo, poço num gosto, não) do tempo em que eu era menina. Cacimba era coisa simples, comum, quase todo quintal tinha uma; mas havia mistérios nesses buracos de água que ás vezes metia medo. Criança perto de cacimba? Nem pensar! Eu aproveitava os raros momentos em que não estava sendo observada pelos adultos e adorava ficar olhando pra cacimba que tinha no quintal da minha casa e imaginando o mundo que existia lá no fundo. Imaginava que existia uma cidade no fundo do fundo da cacimba e que a água era o céu desta cidade e que quando o balde descia para pegar água, chovia na cidade imaginária. Era uma viagem.
E tomar banho de cacimba? Era maravilhoso. Ainda não tinha a Cagece e a gente bebia a água que o seu Manuel vendia. Seu Manuel era um senhor branco cheio de sardas, ele usava um chapéu de palha enorme, calção bege, botas de borracha preta que iam até o meio da canela (perna). Ele passava duas vezes na semana, numa carroça que carregava um enorme tonel de madeira pintado de verde. Era a carroça da água. O bairro inteiro saía correndo atrás da carroça. Lembro bem da torneira do tonel que eu achava linda e ficava olhando seu Manuel encher as latas de água só para poder apreciar a torneira do tonel. Essa água a gente bebia, cozinhava e lavava o cabelo, a da cacimba era só para fazer a higiene do corpo, da casa e para lavar a roupa. Seu Manuel entrava lá em casa, carregando em cada mão, latas de água que enchiam os potes e o meu coração de alegria. Até hoje não sei por que aquela carroça me alegrava tanto.
Um dia a Cagece chegou, meu pai resolveu aterrar a cacimba e o seu Manuel sumiu com sua carroça de tonel verde. Doeu ver minha cidade imaginária ser soterrada. Chorei tanto, com dó dos moradores, dos bichos. Mas a angústia passou quando vi o chuveiro e a banheira branquinha que meu pai mandou colocar no banheiro. Minha cidade imaginária foi transportada, e o melhor: eu podia fazer parte dela; era só entrar na banheira e construir meu mundo. Passei a sentir calor o tempo todo, a me sentir suja toda hora e tomar banho virou meu passatempo, esporte e hobby preferidos.
Mas voltando para a Adélia Prado, procuro ler seus poemas bem aos pouquinhos, bem devagar, todo dia umzinho. Me emprestaram esse livro e nunca vieram buscar, o que o torna mais desejado; de uma hora para a outra o dono pode aparecer e levá-lo. Quando meus olhos passeiam pelos poemas da Adélia, sinto a mesma alegria quando via a carroça do seu Manuel e o mesmo mistério de olhar para o fundo de uma cacimba nos tempos de infância.
Adélia é gostosa, é “bebível”. É uma cacimba de mistério, uma banheira de prazer, um tonel de palavras; uma poetisa em quem eu estou “constantemente” mergulhando.

Sunday, July 15, 2007

Gotas de Sofia - Protesto

Depois da vaia que o Presidente Lula recebeu na aberturas do Pan, o Rio de Janeiro (pelo menos para mim) não continua lindo. Não consigo entender o que esporte tem a ver com política. Que hora infeliz, meu Deus, para se fazer protesto, e que maneira deselegante de fazer protesto tão inoportuno.
Imagino o que os outros países estão pensando de nós.
O Presidente Lula é uma autoridade, queiram ou não, e deve ser respeitado. Existem momentos que ideologias políticas não podem estar á frente do comportamento humano. Na Europa, quando a população quer demonstrar que não aceita o pensamento ou o comportamento de algum político, simplesmente não o aplaude quando o mesmo se pronuncia. Além de ser elegante e educado, o silêncio pode ainda ser mais forte e falar mais alto que a vaia.
Fiquei com muita vergonha. Vaia é coisa de moleque. Nem mesmo a presença do governo paralelo carioca (o tráfico) conseguiu manchar a imagem do Rio como aquela maldita vaia. Foi desumano, não se humilha um presidente dessa maneira.
Não consigo mais ver o Cristo Redentor de braços abertos. O Cartão-Postal carioca mudou e pra bem pior.

Tuesday, July 10, 2007

Gotas de Sofia - FDS (Fim Da Sabença)


Embaralho-me toda com esse “fds” (final de semana) do Orkut. Todas as vezes que alguém me deseja um fds, tipo: “Passei só pra te desejar um bom fds, Rosane”; sempre leio: “Passei só pra te desejar uma boa f..., Rosane”. Por mais que eu diga a mim mesma que FDS quer dizer FINAL DE SEMANA, sempre me vem isso na mente. Deve ser maldade desse meu cérebro cansado ou muita carência, não sei.
Sei que a Língua Portuguesa tem sofrido no Orkut, tem sido torturada aos poucos, como se nos houvesse feito um grande mal e quiséssemos vê-la morrer aos pouquinhos, bem devagar, numa lenta tortura. Nada satisfeitos com os “erros do nosso português ruim”, o pessoal, pra economizar palavra, tempo, sabe lá, tem transformado nosso idioma num sanduíche sem molho e feito ás pressas. Boa parte dessa culpa nós podemos colocar nas Lan Houses da vida. O lema dessas bodegas virtuais não diz “tempo é dinheiro”, mas “palavra é dinheiro”, pois são através da economia das palavras que se economizam alguns trocados. Que ironia! Quem poderia supor que um dia a Língua Portuguesa fosse sofrer tamanho descaso vindo de milhões de pequenas locadoras. O Orkut é nazista, tratando-se da nossa língua. As Lan Houses são verdadeiros campos de concentração gramatical.
Eu sei que não falo nem escrevo corretamente, tenho plena convicção que agora mesmo, neste exato momento os erros estão aqui pra quem quiser ver, mas pelo amor de Deus, o que fazem no Orkut com nossa língua é um crime; e também quero deixar claro que não tenho NADA contra as Lan Houses; pra quem não tem a menor condição de comprar um PC, essas lojas caíram como uma luva, mas tenho, sim, contra a turma que põe as palavras num pilão gramatical, socam, recalcam, em fim, ESCULHAMBAM com o nosso português; mastigam e corrompem a palavra a tal ponto que o linguajar brasileiro vai ficando cada vez mais pobre, insignificante e destituído de beleza. Que bom seria se a “turma do pilão” lesse Adélia Prado. A mulher parece uma adega de palavras; ela nos coloca nas mãos cada palavra linda que dá vontade de bebê-la e degustá-la como se degusta um bom vinho; sem falar nas que ela inventa. Que pena que o nosso país não goste de ler e mais pena ainda que a corrupção tenha atingido lugares nunca dantes navegados: As palavras.

Thursday, July 05, 2007

Gotas de Sofia com Manoel de Barros


Há quem receite a palavra ao ponto de osso, oco; ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las pro chão, corrompê-las até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado: usá-las como quem usa brincos.

Gotas de Sofia com Cora Coralina


Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces.
Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede.

Thursday, June 28, 2007

Gotas de Sofia - O Bêbado e a Equilibrista


Estava, como sempre, na Praça do Ferreira, num fim de tarde maravilhoso. Esperava Mirna. Tínhamos combinado um cappucino e eu sentei no lugar onde costumamos nos encontrar. De repente, sentou ao meu lado um bêbado, daqueles sujos, mal cheirosos, indesejáveis. Sentou e ficou. Aos poucos, as pessoas que estavam sentadas foram levantando e só eu fiquei. Eu tenho a mania de gostar de conversar com pessoas desconhecidas, saber o que elas pensam; gosto de ouvir, afinal, tem um pensamento que diz se temos dois ouvidos e uma boca é porque devemos ouvir mais e falar menos. Sempre aprendemos quando paramos para ouvir, mesmo que seja aprender o que NAO devemos fazer. O escritor Rubem Alves disse numa entrevista que poucas pessoas sabem ouvir porque ouvir é complicado, pois exige que os outros sentidos sejam silenciados. Estranhamente senti vontade de conversar com o sujeito completamente embriagado que estava do meu lado. Iniciei o diálogo com um olhar. Ele já foi me pedindo um real para comer alguma coisa, argumentei que não acreditava que ele fosse comer e que sabia que iria beber. Ele disse que eu estava certa, queria mesmo era beber uma. Iniciamos a conversa. Falei pra ele do AA (Alcoólicos Anônimos) e ele disse que não tinha a menor vontade de parar de beber. Contou-me que já tinha sido do exército e muito bem casado. No inicio bebia socialmente; como morava numa casa grande, nos finais de semana recebia os amigos em casa para churrascadas e, claro, muita cerveja. Era tudo muito bom, ele disse, ganhava bem, tinha regalias por ser do exército, uma boa esposa e um filhinho que amava muito. Um dia, ele bebeu umas cervejas e saiu com o filho no carro. O garoto, que ia no assento do lado, pediu pra ele correr, no que ele atendeu. No desejo de brincar com o filho, de mostrar que era "o cara", meteu o pé no acelerador e só lembra do carro virando e do garoto ser cuspido para fora. O menino morreu na hora. Tinha oito anos. Por causa desse acidente seu casamento acabou - a esposa o acusava - e ele caiu de vez na bebida. Abandonou o exército e a vida. Disse que não se matava porque era covarde. Perdeu tudo, filho, esposa, e dos irmãos não queria saber, queria, sim, beber até morrer. Sentia-se culpado e a única coisa que aliviava seu sentimento de culpa era álcool. Confidenciou que praticava pequenos furtos para garantir a bebida e sempre se dava mal. Dei a idéia de ele buscar a Deus e ele disse que Deus não existia. Percebi que ao tocar no assunto sobre Deus, ele ficou com expressão de revolta que depois foi se transformando e seu rosto foi ficando mais sereno. Falei que eu também tinha sido alcoólatra, que tinha perdido pessoas que amava e ele chorou. Nessas alturas da conversa o efeito da bebida havia passado. Ele confessou que havia no seu coração um pouquinho de vontade de ver sua vida reestruturada, mas achava impossível. Ele tinha sonhos. Mirna chegou e fomos tomar o cappucino combinado. Quando eu saía, o homem disse: - Obrigada por conversar comigo; Deus lhe abençoe! - Fiquei tocada e não me saiu da cabeça o fato de saber que ninguém, por pior que seja a situação, deixa de sonhar, condição inerente ao ser humano. Eu tenho os meus sonhos. Aquele homem me ajudou. Ficava me perguntando pra que sonhar, se meus sonhos não irão realizar-se mesmo. Quem disse que não? O sol ainda nasce, a chuva ainda cai, eu ainda respiro. Isso traz á realidade a velha frase "enquanto houver vida, há esperança".Também aprendi outra coisa: cada bêbado, mendigo ou desvalido que encontramos, neles existe uma historia a ser contada, a ser ouvida, a ser aprendida. A vida é uma corda bamba e necessitamos de equilíbrio. Todos somos equilibristas e, como somos imperfeitos, precisamos de algo que nos ampare, pois quedas sao inevitaveis. Deus tem de ser o equilibrio da nossa vida e o nosso ajudador quando cairmos. Com Deus nos equilibrando, não haverá quedas fatais e sim, um novo começo de algo bom que estará para acontecer.

Wednesday, June 27, 2007

Gotas de Sofia - Defeito Necessário


O prédio em que trabalho tem vinte andares e dois elevadores (foto). Eles estao sempre em manutenção, isto quer dizer que quase sempre há longas filas de espera. É irritante, dá um desânimo ter que descer para fazer uma coisa simples como lanchar, por exemplo. Mas tudo bem, já tô acostumada.
Outro dia soube que o elevador de um outro prédio despencou do segundo andar devido o cabo ter quebrado. O homem que se encontrava no elevador estava muito mal na U.T.I. Fiquei impressionada. Sempre reclamo dos elevadores do meu prédio que só vivem dando defeito, mas agora dou graças a Deus.
É que conversei com um técnico em elevador e ele disse que o elevador que caiu “nunca dava defeito”, por isso mesmo eles não davam manutenção, afinal não precisava.
Segundo o mecânico de elevadores, este foi exatamente o erro do síndico, como o elevador não apresentava defeito, a manutenção não era acionada. Quis economizar e acabou tendo um prejuízo maior.
Por dar muito defeito, os elevadores do prédio em que trabalho estão sempre em manutenção, daí eles nunca terem caído, pois todas as vezes que eles enguiçam, o mecânico sabe se tem algum outro defeito grave. Fiquei tranqüila e agora quando o elevador demora muito a quebrar, fico preocupada, ansiosa por um defeitinho.
Acho que assim acontece com as pessoas. Quando aparentam perfeição demais temos que desconfiar. No dia que der defeito, a coisa é feia. Do mesmo modo que não existem elevadores perfeitos, também não existem pessoas perfeitas.
Pensando bem, sou que nem o elevador do meu prédio: preciso estar sempre em manutenção, fazer introspecções dos meus defeitos e procurar vencê-los. Tenho sorte de ter acesso rápido e confiante ao fabricante. Deus me conhece e sabe onde preciso de conserto. Por isso, todas as vezes que enguiço em alguma área da minha vida, fecho os meus olhos e peço ajuda a Deus. Mesmo que demore, o conserto vem. É só esperar.
Nota de Sofia: Olha aí o prédio que trabalho. Dá pra imaginar o elevador despencando lá de cima? Quem fotografou fui eu.

Rapidíssimas - Frases


"Somente onde há sepulturas há também ressurreições" (Nietzsche).

"Dizer que tudo um dia ficará bem é nossa esperança. Dizer que tudo vai bem hoje é nossa ilusão" (Voltaire).

"Não lemos o que lemos. Lemos o que somos" (Bernardo Soares).

"'Carp Diem' quer dizer 'colha o dia'. Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Ela acontece sempre no presente" (Rubem Alves).

Tuesday, June 26, 2007

Gotas de Sofia com Ledo Ivo

Sou um sobrevivente na passagem entre o dia e a noite. Onde estão as figuras de antigamente, em que estrelas, em que túmulos se esconderam? Gari implacável, a vida varre os sonhos dos homens e, na praça vazia, vagam os fantasmas dos fracassos dissimulados e dos gordos perjúrios. Sozinho na grande cidade que engole as promessas dos homens, vejo-me passar de repente no jovem poeta desconhecido que atravessa o meu caminho. Deixo de ser eu mesmo para ser, por um instante, o jovem poeta sem nome. Que ele seja fiel à sua promessa de agora, eis o que peço. Que ele seja uma dessas criaturas para as quais nada é perdido, segundo a lição de Henry James. Mas a quem dirigir esse pedido ? Os deuses inexistentes não me ouvem. À vida cega e surda? Ao mar longínquo e mudo? O jovem poeta Ledo Ivo dilui-se na sombra da tarde. E anoitece.

Saturday, June 23, 2007

Gotas de Sofia com Jacques Prévert - O Gato e o Pássaro

Uma cidade escuta desolada
O canto de um pássaro ferido
É o único pássaro da cidade
E foi o único gato da cidade
Que o devorou pela metade
E o pássaro deixa de cantar
O gato deixa de ronronar
E de lamber o focinho
E a cidade prepara para o pássaro
Funerais maravilhosos
E o gato que foi convidado
Segue o caixãozinho de palha
Em que deitado está o pássaro morto
Levado por uma menina
Que não pára de chorar
Se soubesse que você ia sofrer tanto
Lhe diz o gato
Teria comido ele todinho
E depois teria te dito
Que tinha visto ele voar
Voar até o fim do mundo
Lá onde o longe é tão longe
Que de lá não volta mais
Você teria sofrido menos
Só tristeza e saudades
É preciso nunca fazer as coisas pela metade
Nota de Sofia: O título desta foto é "Asas da Imaginação".

Thursday, June 21, 2007

Gotas de Sofia - Não Foi Nada Engraçado!

Quando eu era menina, adorava "andar de carro" com o Dim, meu irmão por parte de pai. Ele era divertido, moleque, brincalhão, mulherengo e bebedor. Lembro que quando íamos no carro, ele cantava alto e pedia pra eu acompanhar fazendo percursão improvisada: a porta do carro. Dizia que eu tinha jeito pra tocar bateria.
Eu cresci e me tornei boêmia como o Dim. Por causa dessa boemia em comum nos tornamos muito amigos e saíamos juntos vez por outra. Uma vez, doidos pra farrear, roubamos o carro do nosso pai; de volta da farra, vinhamos na "Zeba" (como é hoje conhecida a Av. José Bastos), tínhamos enchido a cara com "batida de banana" (arghhh) e o Dim meteu o pé no acelerador, fazendo o carro voar. Ele cantava alto e eu, como sempre, acompanhava na percursão improvisada. De repente, a direção do carro se escondeu em algum lugar, o Dim a perdeu e o carrinho, um Fiat azul, (daqueles primeiros), abraçou uma árvore "zebastiana" com todo o gás. Lembro que quando o carro estava correndo pros braços da árvore, senti o braço do Dim segurar meu peito como um cinto de segurança, pois naquele tempo ninguém usava cinto e se usasse, era um tremendo "zé mané". Como ele me protegeu com seu braço, nao sofri nenhum dano, já ele...
Veio a pancada, estilhaços de vidro e o rosto do Dim coberto de sangue. Quando vi a cara do Dim toda vermelha, toda ensanguentada, tive uma crise de riso. Ri tanto que o pessoal que correu pra ajudar achou que eu tava doida, mas eu tava era muito nervosa.
Fomos levados para o hospital e o Dim teve que amargar dias de cama sem mulher e sem bebida. Jejum sexual e alcoólico total.
A lembrança dessa batida de carro me trouxe á memória um incidente (não acidente) quase igual, só que com pessoas diferentes. Minha amiga Jô me levou pra passear de jeep pela recém-inaugurada Beira-Mar. Éramos adolescentes e fomos uma turma no jeep de um amigo, do qual não recordo o nome neste momento. Estava eu, Jô, Jaqueline, Geny e o motorista do jeep de capota aberta - um desbunde pra época - passeando na praia. A gente ía pra cima e pra baixo, rindo, gritando naquela algazarra de gente demasiadamente jovem, quando a direção quebrou. Olhei e vi o tal rapaz literalmente com a direção na mão, solta no ar. Foi um desespero coletivo, menos da Jô, é claro. Sabe o que aconteceu? A Jô teve uma das suas sádicas crises de riso; ria da minha cara vermelha de medo e da Geny, que chorava dizendo: - Oh, meu Deus... Vou morrer sem a tia saber...
A tia da Geny era a Dona Dulce, que a criava.
Não sei como aquela direção voltou ao lugar. O jeep foi controlado e graças a Deus, não houve nada, mas a Jô passou anos rindo da frase desesperada e desconexa da Geny.
Voltando ao Dim, a maneira como ele me protegeu na noite da batida sempre esteve na minha memória e no meu coração. Isso aconteceu no ano de 1981, eu tinha dezenove anos.
Eu deixei de beber, larguei as farras e por isso o Dim deu uma afastada de mim, os nossos mundos tornaram-se muito diferentes, mas eu sei que ele nunca deixou de me amar.
Hoje é quinta-feira, 21 de junho de 2007. De segunda para terça, ás 1:30 da madrugada, acordei com o grito da minha irmã, que mora ao lado. "Meti os pés" e quando saí na rua, vi o Dim deitado na calçada, em frente a casa dela, morrendo numa parada cárdio-respiratória. Tentamos reanimá-lo, enquanto vizinhos que também ouviram o grito, chamavam táxi e ambulância, mas quando chegaram era tarde demais, o Dim estava morto.
Dias atrás ele havia saído do hospital. Devido á bebida alcoólica, ganhou uma cirrose e por causa do cigarro, um efizema pulmonar. Parou de beber, mas continuou fumando, disse que o cigarro, não largaria nunca. Pobre Dim. Fez a escolha errada.
A memória tem o dom de ressuscitar palavras, ações, que julgamos ter esquecido. Enquanto tentava reanimá-lo, lembrei quando ele, há muito tempo atrás, me disse que gostaria de morrer ao ar livre, olhando para as estrelas, não num hospital. Seu pedido foi atendido.
Meu coração tá muito apertado. O Dim me protegeu colocando seu braço no meu peito na noite da batida e eu nada pude fazer com o meu braço em seu peito na noite da sua morte. O coração do Dim não quis saber, parou de bater e dessa vez não houve crise de riso, e sim, de choro, de profunda tristeza e pesar.

Dessa vez, não foi nada engraçado!