Tomamos banho com água congelada (rsrs) e fomos para a festa. Quem já tomou banho com água de caixa d’água em cima da serra, me entende. Eita água fria. Pois bem, tocamos para a festa de casamento. A casa era pequena, mas a quantidade de comida era grande, enorme, macro. Imagine um banquete romano regado a cachaça em vez de vinho. Três carneiros foram sacrificados para o ritual de cinqüenta anos de casamento; fora as galinhas caipiras, as lingüiças e a carne de gado. Sem contar ainda as saladas, arroz e feijão em abundância e frutas, muitas frutas. Se eu fosse chegada a uma cachacinha e forró, tava feita. De longe ouvi o forró troando, mas o que eu queria mesmo era comer numa festa interiorana, ter essa experiência que, confesso, foi inesquecível e agradabilíssima, apesar dos acontecidos. Uma coisa que me impressionou muito foi o fato de a casa estar cheia de gente. Claro que uma festa enche uma casa de gente, principalmente quando se trata de casamento, mas TODO MUNDO ser da mesma família? Peraí! Acho que a única “não-abreu” era eu. Até do meu amigo Costa Jr. desconfiei ser um Abreu, pois a cumplicidade com que ele adentrou a casa foi interessante; parecia que já conhecia o povo, a casa. E começou um festival de “aquela é minha tia, aquele é meu primo, aquela outra, minha prima segunda...”, etc., etc. Era mais fácil saber quem NÃO era da família: eu mesma. Para quem não sabe, vai a dica: em cima da serra do Lajedo tem a “Abreulândia”, terra dos Abreus.
É interessante perceber que nessas festas todo mundo entra, come e bebe. Ninguém se importa, ninguém se preocupa, ninguém desconfia de ninguém. Ninguém quer saber quem é aquele que acabou de chegar, entrou e comeu fartamente, só sabe que é Abreu, isso é o suficiente. A casa é de todo mundo. Todos dividem tudo, inclusive a caneca de tirar água do pote. Contei que na casa da dona Fransquinha tinha um pote com caneca, etc., porém, a caneca é somente para tirar água do pote, não se pode beber nela. Na festa, o sistema era diferente. A caneca tanto servia para tirar água do pote como para beber. E era somente uma caneca. Ali, tive uma aula prática e aprendi o que é cumplicidade. Todo mundo que tava com sede ia ao pote, metia a caneca e bebia. E as crianças? As crianças também e ainda pondo em prática os ensinamentos de que água é coisa valiosa no sertão (principalmente nesses tempos sem chuva), portanto, tem que economizar. Elas bebiam e o que sobejava, devolviam ao pote. Só depois de um tempão foi que observei o fato. Tarde demais! Quando cheguei à festa estava com muita sede e ainda embriagada pelo sabor da água do pote da Dona Fransquinha, pedi um copo d’água toda contente e bebi cheia de alegria. Fazer o quê, né?
Depois de comer tudo que tinha direito e o que não tinha também, o dono da casa passou pela nossa mesa (estava eu, o Costa e a Ana) e colocou uma BACIA cheia de carne de carneiro assada bem na nossa frente. Eu disse uma BACIA. Só pra nós três. Fui inventar de dar uma beliscadinha de nada, porém, a carne era de uma maciez capaz de fazer qualquer desdentado triturá-la; estava no ponto (nem salgada, nem insossa) e o cheiro, então?...hum... Não resisti e mandei ver.
Foi em tremenda aflição que conheci de perto a hospitalidade dos lajedienses. Hospitalidade mesmo, no sentido da palavra. É fácil ser hospitaleiro quando conhecemos a pessoa. Por isso, disse que a Serra do Lajedo é habitada por bons samaritanos. Depois de comer bastante, sem costume dessas festas, acostumada a pizzarias, lanchonetes, aniversários regados ao creme de galinha, essas coisas de cidade grande e ainda somando ao susto de ter sido mordida pelo cachorro, senti uma das maiores dores de barriga da minha vida. Não consigo traduzir como era a dor. Parecia que tinham colocado meu intestino numa máquina de lavar, na máxima velocidade. Comecei a suar frio e pedi socorro a Aninha, que prontamente quis me levar ao banheiro, mas só tinha um banheiro na festa e eu achei melhor pegar o carro e ir até a casa do Marcos, seu irmão, o lugar mais próximo. O Costa foi dirigindo e as ruas do vilarejo são cheias de lombadas naturais, feitas de barro vermelho, o que fazia com que a agonia do intestino aumentasse. Chegamos na casa do Marcos e estava fechada. O desespero tomou conta do meu ser, principalmente do meu intestino, coitado, que se apertava aflito, pedindo para ser aliviado. A dor de barriga se misturou com a angústia de não ter pra onde ir. Comecei a orar, a pedir misericórdia a Deus e como sempre, Ele foi mais uma vez Bom e Misericordioso para comigo. Aninha se lembrou de uma amiga, Dona Fátima, e fomos lá. Agora imagine, fazia tempos Ana não via essa senhora e chegou de repente na pequena fazenda da Dona Fátima, acompanhada da minha pobre figura pálida, aflita, desesperadamente necessitada de um banheiro. Ana nem falou direito com a anfitriã, foi logo pedindo para eu usar o banheiro. Dona Fátima poderia ter ficado indignada, mas quando olhou pra mim sentiu pena, tenho certeza, pois, sem delongas me deixou entrar.
Caminhei para o banheiro como um budista caminha para o Nirvana: disposta a me esvaziar de tudo. Quando abri a porta e vi o vaso sanitário, a alegria foi tão grande que (Deus me perdoe), comparei aquele pequeno espaço com o Paraíso. E quando sentei? E quando fiz o que tinha que fazer? Sentei e tudo se fez novo. Nunca havia orado naquelas circunstâncias, mas posso garantir que naquele momento minha oração foi uma das mais fervorosas e agradecidas que orei.
Depois que saí do banheiro (morrendo de vergonha), me apresentei. Pensei que a dona Fátima fosse me despachar. Qual o que! Dona Fátima me ofereceu remédio e armou uma rede na varanda pra eu deitar e descansar. Uma rede novinha, limpinha e cheirosa.
A casa da dona Fátima é um pequeno Paraíso na serra do Lajedo. Ela é viúva, mora com os filhos e cria gado. Sua casa é linda, toda avarandada, cheia de paz. Na sua cozinha tem um enoooorme fogão à lenha, onde ela cozinha favas, feijão e carne. No forno do fogão a gás, dona Fátima faz bolos deliciosos. Sei disso porque acabei não resistindo quando, ao acordar do cochilo, ela me ofereceu uma fatia de um deles, com café. E a vida continua. Ah, dona Fátima, se todos fossem iguais a você...
Uma coisa que ficou registrada na minha memória é a expressão que eles usam quando saem de suas casas para irem à cidade. Quem mora um pouco afastado, como a mãe da Ana, chama o pequeno lugar de vila. Na vila tem os pequenos comércios, as escolas e a praça principal, onde acontecem os eventos da cidade. Essa expressão me lembrou muito aquelas vilas medievais, no tempo em que nem existia dinheiro, tudo era trocado. Quando dá sete horas da noite, quase todo mundo vai para a vila, conversar na praça; quando dá nove horas, não tem um pé de pessoa. Dormem com as galinhas e acordam com o galo. Os caminhos que a maioria tem que percorrer tanto para ir para a vila, como para voltar pra casa, são iluminados pelas estrelas do céu e pela lua. Mesmo no escuro desses caminhos, se reconhecem. Dizem: “é o vulto de fulano!”.
O pai da Aninha. É o típico homem do sertão. Calmo, tranqüilo e trabalhador. Contador de “causos”. A gente olha pra ele e já sabe sua opinião sobre riqueza e prosperidade. Riqueza para o seu Sebastião é comida, é feijão na panela, é rapadura no paiol, é banana docinha, é chuva boa, é estar rodeado de filhos e netos, é ovo “cuzido”, é o crepitar da lenha no fogão cozinhando fava pros porcos e fazendo café. Posso dizer que estive bem próximo de um homem feliz.