Wednesday, June 13, 2007

Gotas de Sofia - O Parto


Elas moravam na "rua dos trilhos", hoje Tristão Gonçalves, bem no centro de Fortaleza. Segundo minha mãe, o bonde passava bem em frente à casa que fora herança do pai das três irmãs solteironas, e mulher solteira naquela época ou seria freira ou ficava no "caritó".
Pois bem, Estela, Isa e Cora eram três moças solteiras que moravam na mesma casa e as histórias de suas solteirices eram das cômicas às dramáticas. Uns diziam que a primeira fora abandonada no altar e assim perdeu o gosto pelo amor; a segunda não tendo o consentimento do pai para casar-se com o homem amado, decidiu não querer conhecer as delícias e as dores do matrimônio com outro; e a terceira, por livre-arbítrio (que Deus a todos dá), resolveu ficar solteira, e assim, sem o saber, foi uma das pioneiras na emancipação feminina cearense.
Cora era uma moça solteira por livre e espontânea vontade, em plena Fortaleza provinciana, arcaica e de população faladeira. Ainda no tempo em que a Praça da Lagoinha era uma pequena lagoa (daí a origem do nome) onde vacas e cavalos iam matar a sede, e que abacaxi era chamado de "ananás".
Cora, a mais nova e a única extrovertida e alegre do trio, com esse "gesto de liberdade", mostrava que tinha o sangue do pai, Theodorico de Castro, abolicionista convicto, que comprava escravos (os poucos que existiam no Ceará) e os alforriava, para espanto dos amigos e preocupação da família, pois o antiescravocrata, um dos fundadores da Sociedade "Liberdade e Porvir", não era homem de muitos recursos. Ficavam espantados com o ato, no que ele respondia:
- Que é que tem? O dinheiro não é meu? - E assim, em nome da liberdade dos negros, a família foi ficando mais pobre.
Um dia, as três ficaram sem o pai abolicionista, sem a mãe, casaram-se os irmãos e a solteirice tornou-se o elo que unia Estela, Isa e Cora. Continuaram morando na rua dos trilhos iluminada por lampião à gás, vendo o tempo embranquiçar-lhes os cabelos e assistindo a chegada do progresso que, para quem começa a viver é essencial e motivo de orgulho, mas para quem está a meio caminho da vida, é o comboio onde se vê partir a própria história e os velhos e cômodos costumes.
As irmãs, rodeadas pelas mudanças que foram pouco a pouco tomando conta de Fortaleza, mantinham-se resistentes na velha casa de quintal diminuído, devido a venda da metade do terreno para que o pai custeasse seu sonho de liberdade. Então, a primeira coisa que viram ir embora foram os pés de sapoti, manga-rosa, genipapo, manguita, siriguela, goiaba, abacate, cajarana, romã, cajá e tantas outras frutas que diariamente viravam saborosos sucos. Logo depois foi a vez da bodega do Chico Ramos, que ficava na esquina da Pedro Pereira, onde crianças saboreavam alfinins e rapazes conquistavam as moças de família comprando tijolinhos em forma de coração, por 400 réis e os enviavam às beldades, junto com românticos bilhetinhos. A velha bodega fechava suas portas para dar lugar e uma das primeiras lojas de tecido.
Já não mais se ouvia o grito da negra velha, filha de escravo, rainha do congo, que já caduca, acusando o filho de lhe ter roubado e vendido a folclórica coroa para beber cachaça, gritava ensandecida:
---- Chicoooooooo, me dá minha coroa, Chico!!!
Ou a voz estridente do vendedor de mel que gritava a plenos pulmões:
---- Meeeeeeeellll, olha o meeeeeel!
A Praça da Lagoinha também foi sendo lapidada pelo progresso, não para ser transformada numa jóia da arquitetura urbana, mas para tornar-se uma escultura grotesca e de extremo mau gosto.
Estela, a saudosista, sentava-se na sala da casa, na mesma cadeira que o pai costumava sentar para falar dos malefícios da escravidão e ficava a lembrar-se e a quase ouvir a banda de música da polícia que tocava no coreto da praça todos os domingos. Chamavam esse acontecimento de "retreta".
---- Vai ter retreta hoje na praça - avisavam os transeuntes, felizes da vida.
As três irmãs ouviam a retreta sentadas num banco de madeira bem no centro da praça, que era divida. O centro da praça era exclusivo às famílias, e lá, as domésticas não podiam transitar. Eram-lhes permitidas somente as pontas da praça, onde não havia bancos.
A música vinha inocente, misturada ao perfume das boas-noite brancas e das patiulís, que impregnavam o ar das noites cálidas de Fortaleza.
Assim, Estela, Isa e Cora foram envelhecendo, envelhecendo e não se sabe se feliz ou infelizmente, foram ficando para ver a rua dos trilhos tornar-se Avenida Tristão Gonçalves, os automóveis tomando o lugar do bonde, o asfalto chegando, a praça tornar-se a "praça dos malandros" e as lojas aglomerando-se qual uma favela comercial.
Estela era vegetariana convicta, defensora exagerada do sexto mandamento "Não matarás". Não admitia assassinato nem de barata, para desespero de Cora e Isa, que viviam às turras com a irmã, porque esta se recusava a matar o repugnante inseto. Quando via Isa com um chinelo na mão, pronta para começar o holocausto, corria e segurava os braços da carrasca de baratas.
---- Você não quer viver, Isa? Não gosta de viver? Então deixe nossas irmãs inferiores viverem também -- bradava defendendo o estranho parentesco.
---- Irmãs inferiores? Só se forem suas, porque minhas não são, não! -- respondia Isa indignada, com chinelo em punho, disposta mais do que nunca à carnificina.
Um dia, Estela caiu doente de velhice. Estava com quase cem anos, farta de dias. Todos nós sabemos que a inevitável morte, mais cedo ou mais tarde chegará, o que não foi diferente com nossa querida vegetariana, defensora da vida. Uma doencinha aqui, outro probleminha ali, não teve alimentação saudável, à base de frutas e verduras, que pudesse fazer alguma coisa por "Nenê" (assim chamada carinhosamente), apesar da dieta especial de tantos anos ter ajudado na preservação da espécie.
Isa e Cora cuidavam de Estela com carinho. Cora era figura extremamente divertida, possuía o dom de animá-la e estava sempre ao seu lado, enquanto Isa dedicava-se à administração da casa, pois naqueles dias, devido à idade avançada das três, era-lhes necessário ter uma diarista, vista no início com muita desconfiança, mas com o tempo aceita com carinho pelos três bons corações que habitavam a velha casa da Tristão Gonçalves.
Uma tarde, Estela sentiu uma forte dor de barriga. Fortes cólicas agitavam seu corpo magro e enfraquecido pelos anos. Já não podia levantar-se e andar até o banheiro e recusava-se a usar a "aparadeira". Dizia que enquanto tivesse lucidez, jamais usaria humilhante indumentária, e justamente por causa disto foi providenciado uma cadeira de rodas com uma abertura no assento para que assim nossa querida vegetariana pudesse sentar-se e fazer suas necessidades sem precisar caminhar até o banheiro.
As cólicas apertavam mais e mais. Neste dia, Isa e Cora estavam na cozinha conversando e ouvindo rádio. Prestavam atenção na voz desafinada do moço que cantava "Chega de Saudade" e comentavam sobre as mudanças na música popular brasileira. Reclamavam porque no rádio não se ouvia mais Augusto Calheiros e Orlando Silva, que segundo elas, foram substituídos pela tal Bossa-Nova. O volume da música não lhes permitiam ouvir os apelos desesperados de Estela, que esforçava-se para não fazer as necessidades na cama, pois outra característica sua era a higiene extremada.
A diarista, que acabara de chegar da feira, entrou esbaforida na cozinha, chamando aflita:
---- Dona Cora, a dona Estela tá feito uma desesperada gritando por vocês. Acho que ela tá sentindo alguma coisa.
Todas acudiram ao quarto, onde encontraram Estela se contorcendo de dor.
----- Cora... Cora -- chamava Estela aflita -- Eu quero ir ao banheiro... Quero ir ao banheiro -- gemia com voz sumida, pálida de dor.
A diarista correu a buscar a cadeira de rodas. As três, com muito esforço, colocaram-na sentada e já empurravam a cadeira em direção ao banheiro que ficava perto da cozinha, quando Cora percebeu que não daria tempo. Olhou para a jovem diarista e pediu numa aperreação só:
----- Corra e traga o penico depressa!!!!
A diarista saiu tumultuada e trouxe o penico que foi imediatamente colocado em baixo da cadeira de rodas, em lugar estratégico.
Estela contorcia-se de dor cada vez mais. Grandes gotas de suor escorriam de sua testa pálida, afinal, completavam quase cinco dias que não fazia aquele tipo de necessidade fisiológica, devido a prisão de ventre.
Isa segurou num braço e a diarista no outro, enquanto Cora a observava de frente, esperando ansiosa que a irmã mais velha vencesse a difícil batalha. A pobre mulher espremia-se fazendo uma força descomunal, além da capacidade de seu pequenino e frágil corpo. O rosto branco tornou-se vermelho, devido ao esforço, deixando Cora apreensiva.
Com os olhos esbugalhados, Estela espremia-se, parecendo que seu corpo estava prestes a explodir.
De repente sua fisionomia mudou drasticamente. O que antes era a face do terror tornou-se paz, enquanto no pequeno quarto pairava um fedor inacreditável.
Isa, Cora e a diarista levaram, simultaneamente, as mãos ao nariz. O mau cheiro impestava o ar. A diarista inventou uma desculpa e saiu. Estela, tranqüila, mas ofegante, chamou pela irmã:
------ Cora... Cora...!!!
------ O que é Estela? -- perguntou curiosa.
Ainda ofegante e sem forças, Estela estendeu as frágeis e trêmulas mãos para Cora e a segurou pelo braço com as poucas forças que lhe restavam, implorando chorosamente:
------ Por favor, Cora... Cuide do meu filho... Cuide do meu filho... --- delirava.
As duas irmãs entreolharam-se espantadas. Cora olhou para dentro do recipiente que estava embaixo da cadeira de rodas, sem acreditar como algo tão grande saíra de um corpo tão magro.
Apontou para o penico e com dedo em riste, exclamou alto e bom som:
----- Desse fedorento aí??? NUNCA!!!!!

Thursday, June 07, 2007

Gotas de Sofia - "Homocausos" 3

O ano era 1973. Na Praça do Jardim América havia chegado uma “quermesse”. Eu tinha onze anos e estava deslumbradíssima com a Roda Gigante; para mim não havia aventura maior que dar uma volta naquela coisa gigantesca, que nos elevava ás alturas e provava por A+B que menina era corajosa. Eu não era lá um poço de coragem, muito pelo contrário. Eu era aquela que as meninas tinham que ajudar a subir em árvores e em muros. Juntávamos uma turma pra ir roubar manga em um terreno próximo da nossa casa e elas nunca me deixavam subir porque a subida tomaria muito tempo, se por acaso o dono do terreno aparecesse eu não conseguiria descer rápido, então eu segurava o saco e ficava recebendo as mangas que eram jogadas pelas muito corajosas Jô, Jaqueline e Celsa. Que rapidez para subir na árvore e roubar manga, meu Deus. Eu as invejava profundamente. A mais rápida e corajosa era Jô, pois era pequena e magra, o que facilitava muito.
Conheci Jô aos dez anos, em novembro de 1972 e digo com convicção que ela foi um dos grandes presentes de Deus para mim. Foi uma companheira maravilhosa e esteve comigo nos momentos mais difíceis da minha vida. Pena que Deus a tenha chamado tão cedo. Como eu disse, Jô esteve ao meu lado em tempos difíceis e era “expert” em encorajar, consolar e apoiar um amigo sob qualquer circunstância. Sob QUALQUER circunstância MESMO.
Foi nesse parque, na Roda Gigante, que deparei pela primeira vez com a coragem e com o apoio dessa grande e inesquecível amiga, apoio esse que se repetiria por trinta e dois anos e coragem essa que não ficava apenas nas subidas ás árvores.
Chegamos ao parque e ela foi logo chamando pra gente dar uma volta na Roda Gigante. Minhas pernas tremeram só em pensar de estar lá no alto. Perguntei se ela não preferia o carrossel e recebi um olhar que dizia ser eu uma idiota, então sugeri os barquinhos de madeira e ela me chamou de babaca com os olhos. Tinha doze anos.
- Deixa de frescura, Rosane... Tu num tem vergonha, não? Ter medo duma besteira dessas? Anda logo!!!! – E foi me puxando praticamente a força para a fila que se formava na bilheteria.
Ingresso na mão, roda gigante parando e o coração também. Eu tava tão nervosa que mal podia respirar. Quando chegou a nossa vez de subir, quis desistir, mas ela me segurou pelo braço e me sentou no banco da Roda Gigante. O rapaz que punha a roda para girar fechou nosso banco e subimos um pouco para que outro banco fosse ocupado. A roda começou a subir, subir, subir e o meu coração a descer para os pés. E ela ria da minha cara vermelha, do meu olhar de desespero. Eu olhava para baixo, as pessoas iam diminuindo e meu medo aumentando e a risada da sádica cada vez mais forte. Ainda não satisfeita com meu sofrimento, começou a balançar o banco, a ficar em pé e a gargalhar quando a Roda Gigante descia de uma vez.
Eu já tava pra pedir socorro quando notei que ela ficou séria de repente.
- Que foi, Jô? - O pavor tomou conta de mim. Achei que estava acontecendo alguma coisa com a Roda Gigante.
- O que foi??? – Insisti – Fala logo!!!
O movimento da roda começou a diminuir. Ela me olhou nos olhos e me pediu para olhar para baixo, para uma pequena aglomeração de pessoas que se formava de frente para a bilheteria. Olhei e percebi o tumulto de uma multidão que aumentava. A Roda Gigante deu uma parada para descer a primeira dupla e eu, lá de cima, pude ver que bem no meio da multidão estava meu irmão e junto dele estava Raquel, um dos primeiros travestis de Fortaleza. Os dois eram muito amigos, meu irmão havia a algum tempo assumido sua sexualidade homo e nessa noite levou a Raquel para passear no parque, achando que as pessoas não sabiam que era um homem, mas alguém que conhecia a Raquel deu com a língua nos dentes e o boato que havia um travesti no parque foi se espalhando. Pois bem, olhei um pouco mais e vi que vários homens tinham pedras na mão. Meu coração quase parou de vez. Eles queriam linchar a Raquel e meu irmão não deixava, protegia o amigo que chorava apavorado e como os linchadores conheciam minha família, queriam somente a Raquel e tentavam arrancá-la pela força; como ele insistia em não entregá-la, alguns já estavam ficando irados e já o ameaçavam.
Finalmente chegou nossa vez de descer. Nem sequer colocamos o pé em terra e Jô correu para o lado do tumulto. Eu fui atrás. Como era magra e pequena, foi abrindo passagem “na marra” e se posicionou ao lado do meu irmão.
Dois conhecidos do bairro estavam muito enfurecidos e acusavam meu irmão de trazer para o parque um “degenerado”. Tentavam puxar a Raquel e meu irmão não deixava. Olhei para meu mano e vi pavor em seus olhos. Nessas alturas do campeonato, todo o parque parou para ver o desfecho. Gritos, uivos, xingamentos vinham de todos os lados. Lembro que tocava a música “Meu amigo Charles Brown”, do Benito Di Paula e até hoje tenho horror de ouvi-la.
De repente meu irmão saiu puxando Raquel. A multidão saiu atrás xingando, e Jô e eu fomos juntas. Nós quatro caminhávamos rapidamente e a multidão continuava nos acompanhando. Queríamos chegar na Av. João Pessoa e tomar um táxi, mas tava difícil, os rapazes queriam Raquel de qualquer jeito. Começamos a correr. Eu ouvia gritos de “Pega! Pega!” e senti um gosto de morte, uma sensação de que ali era o fim. Olhei e vi um fusca-táxi. Dei a mão e ele, milagrosamente, parou. Os táxis que passavam não paravam com medo do que viam. A porta abriu. Meu irmão rapidamente subiu e Raquel foi atrás. Um dos rapazes segurou Raquel pelos cabelos longos e loiros. Meu irmão a puxava para dentro do fusca e o motorista, aflito, não sabia o que fazer. Eu olhava sem poder fazer nada. A dor, a raiva e o medo eram tão intensos que me paralisaram quando vi a violência. Comecei a chorar, gritando.
Repentinamente ouvi um urro. Olhei para ver o que havia acontecido e não acreditei na cena. Minha amiga Jô achou um pedaço de pau, não sei onde e deu uma paulada nos testículos do sujeito que agredia a Raquel. Como era pequena e magra, não foi muito difícil acertar o alvo.
O cara caiu no chão urrando de dor. Raquel subiu e o fusca saiu chispando. Ficamos eu e ela.
Uma mistura de alívio e gosto de vingança me invadiu. O amigo do rapaz agressor olhou pra Jô e disse:
- Vou contar pra tua mãe o que tu fez, Celinha. Se tu fosse minha irmã te metia a chibata. Deste tamanho e defendendo baitola. Vou falar pro teu irmão, o Joarilson.
- Pode falar até pro Papa. Se vier vai levar paulada nos ovos também.
Ficou parada com o pedaço de pau na mão e a multidão voltou ao parque. O espetáculo havia acabado. Olhou pra mim e falou:
- Deixa de frescura, mulher. Fica aí parada chorando feito besta.
Saímos caminhando de volta para casa. Íamos em silêncio e de repente ela começou a rir. Ria tanto que me contagiou e eu também caí na gargalhada.
- Tu precisava ver a tua cara vermelha, Rô! Muito engraçada, eu num agüento.
E sempre foi assim. Sempre que a sádica me via em situação de medo, caía na gargalhada. Foi desse jeito até quando estava no hospital para operar-se de um tumor no intestino. Quando as enfermeiras chegaram para levá-la á sala de cirurgia, eu estava junto e meu coração se encheu de medo. Ela olhou pra mim e começou a rir, mostrando as enfermeiras minha cara vermelha. Me fitou o olho e disse:
- Pensa que vai se livrar de mim, hein? Eu vou voltar, cara de tomate! - E se foi.

Naquela noite da tentativa de linchamento quase não dormi. Adrenalina pura. Mas uma coisa eu tinha certeza, apesar dos meus poucos anos: Havia ganho um tesouro de valor inquestionável: minha pequena grande amiga sádica Joaricele, a Jô.

Gotas de Sofia - Coisas de Cearense

Dia desses tomei o ônibus Parangaba/Mucuripe, na altura da Av. João Pessoa. Era um sábado quente, o calor sufocante das duas da tarde, aquelas tardes onde todo mundo se encontra na parada da desimpaciência.
Notei que na parte de trás do ônibus se posicionavam em direção à roleta umas oito pessoas, esperando o cobrador que não se encontrava no seu local de trabalho.
Percebi uma mulher morena, baixinha, troncuda, batendo o pé rapidamente, naquele gesto nordestino de espera indesejável. E o cobrador, nada. Uns foram sentando e nas paradas seguintes o ônibus foi parando para pegar mais passageiros, e o cobrador...Nada.
Todos os rostos estavam voltados para o lado do motorista, todos esperavam que surgisse o desejado cobrador, pois o espaço já estava mais que apertado.
Já chegando na Av. 13 de Maio, a mulher baixinha, troncuda e com cara de típica cearense, mostrou ser mesmo do Ceará através do linguajar. Ora, todos sabemos que cearense adora, venera palavrão, que linguajar de baixo calão é lugar comum aqui na terrinha. Dizem que cearense parece com judeu, tem em todo lugar e que judeu gosta de dinheiro, cearense gosta de palavrão. Não pode viver sem ele.
Lembro de uma ex-vizinha minha (ex, graças a Deus), onde sua casa era parede-com-parede com a minha. Nossas casas eram do mesmo tamanho e modelo, aquelas casas compridas de vila; onde ficava o meu quarto, ficava o dela e aí, já viu, né? Se ela desse um espirro alto pela madrugada, a gripe se instalava no meu lado.
Esta vizinha tinha um linguajar terrível. De dez palavras, onze era palavrão. E tinha uma mania que me deixava desesperada. Ela e o marido, depois de brigas homéricas, curtiam um filminho pornô e tinham a mania de ouvir a TV no último volume...No quarto, é claro.
Aí vocês podem imaginar a esculhambação que rolava.
Eu, pobre solteira, carente e solitária, ficava ouvindo nitidamente aqueles gemidos americanos. Se o leitor não conhece gemido americano, vá a uma locadora próxima e alugue um filme pornô e aí você saberá a diferença. Não sei se é proposital, mas atriz pornô americana quando está atuando lembra mais uma sirene de carro de bombeiro do que uma mulher sentindo prazer. Então, dentro de minutos de película erótica, os gemidos da terra do Tio Sam se misturavam aos urros da terra da “Burra Preta”, lembram dela?
Pois bem, eu passava as noites ouvindo aqueles “Ooooh, yesssss...Fuck me...Fuck me” unido a gritos de “Aiiiiiii...é agora...é agora”.... E o pior: depois que eles terminavam, adormeciam, esqueciam-se da vida e... De desligar a TV.
Dá pra imaginar aquele típico chiado televisivo, alto e bom som, em plena madrugada? E sem falar nos roncos do maridão saciado. Eu, coitada, com os dois travesseiros, um em cada ouvido, tentava, em vão, dormir e caía no choro, não sei se de raiva ou solidão. Só sei que sexo, para mim, não foi mais a mesma coisa.
Esta vizinha tinha um filho de mais ou menos seis anos, chamado Carlinhos. Posso garantir ao caríssimo leitor que sei o nome do Carlinhos porque ele mesmo me disse, mas pela boca da mãe eu o conhecia como “porra”. E posso garantir também que o nome do marido não sei até o dia de hoje, só o conheci pela alcunha de “bicho nojento”.
Era um tal de “Vem cá, porra; vem tomar banho, porra; anda comer, porra”, que fiquei curiosa pra saber o nome daquela criança. Aproveitei um dia em que ele brincava na calçada e perguntei: - Qual o seu nome, garoto? (quase que o chamo “porra”). E ele respondeu, para minha surpresa:
--- Carlinhos!
Entrei em casa satisfeita de saber que o menino tinha um nome, quando, estupefata, ouvi a vizinha chamar do quintal de sua casa: - Carliiiiiimmmm....! E o menino nada de responder. Ela chamou a segunda vez mais alto: - Carliiiiiiiiiiimmm!... E nada. Eu torcia que o garoto respondesse, pois havia acontecido um milagre: a mãe do Carlinhos o chamava pelo seu verdadeiro nome. Pensei cá com meus botões: é o aniversário dele, talvez.
Com a voz já se esguelando, gritou a terceira vez: - Carliiiiiiimmmm... E o Carlinhos lá na calçada, brincando...
A mulher largou o que tava fazendo e, aos berros, esbravejou da cozinha: - Pau no cúúúúú, vem cáááááá... E o Carlinhos, lá da calçada, respondeu choroso e calmo: - Quiééé, mãe?
Aí eu pensei: Deve ser o sobrenome dele.
Agora voltando ao ônibus, a mulher baixinha e troncuda abriu o verbo "palavrear".
Gritou da roleta a plenos pulmões: - Motoriiiiiistaaaaa, cadê o "carai" do trocador? A gente tem mais o que fazer... Eu num posso ficar nessa porra em pé a tarde toda, não!
O motorista olhou pelo retrovisor com os olhos espantados e perguntou: - O trocador num tá aí, não????
E todos responderam em uníssono: - Nãããooo!
O homem parou o ônibus, botou a mão na cabeça e disse: - Valha, esqueci o trocador no terminal.
A gargalhada foi unânime. Ficamos uns cinco minutos esperando o esquecido e aflito trocador chegar num ônibus que vinha atrás.
Desci no meu itinerário pensando: Coisas de cearense.

Sunday, May 06, 2007

Gotas de Sofia... - Lembranças

Acho que já comentei por aqui sobre a mãe da minha amiga Iracélia, a D. Matilde.
Esses dias de chuva têem me trazido á memória a figura inesquecível da D. Matilde, a lavadeira do bairro. Separada do marido e tendo uma filha pra criar, D. Matilde lavava e passava pro pessoal do bairro, inclusive pra minha mãe. Todas as noites, ela e a Iracélia iam para minha casa. D. Matilde via TV junto com mamãe enquanto eu e a Iracélia, mais um bando de meninas, brincávamos de “carimba” na rua. Dias de muita felicidade.
A D. Matilde era detentora de uma personalidade mística e dizia ter o poder de receber “revelações” sobrenaturais. Numa dessas, que sempre acontecia depois dela tomar uns bons goles de cachaça, descobriu que se Deus podia ressuscitar pessoas, ela podia ressuscitar animais; e foi a partir dessa “revelação” que a vida da minha boa amiga Iracélia passou por dias turbulentos. Tudo que era de gato morto, seja por envenenamento, atropelamento ou doença, a D. Matilde, se tivesse tomado uns goles da “marvada”, corria a pegar o defunto e tentar ressuscitá-lo.
Tinha dias que ela chegava a levar para dentro de casa três gatos mortos e passava a noite inteira na tentativa de ressuscitar os bichanos com palavras incompreensíveis (pelo menos para mim) e com danças esquisitas.
A Iracélia ficava louca, coitada. Certa vez chegou com uma enoooorme jia. Era grande, gorda e... morta! A pobre Iracélia ficou mais que desesperada. D. Matilde cismou de ressuscitar a bicha e praticamente obrigou a filha a participar do ritual. Minha amiga contou depois que sua mãe abriu a jia com uma gilete e fez inúteis tentativas, é claro, de ressuscitar o animal. Vendo que não conseguia, assou a jia e fez tira-gosto. Foi aí que nasceu uma idéia na fértil cabeça da Iracélia. A minha amiga simplesmente começou a “caçar” jias no bairro e teve muita sorte porque era época de inverno e elas, as jias, faziam filas para serem apanhadas. Como aprendeu a “tratar” jia com a mãe, a Iracélia as vendia nos bares do bairro, que utilizavam carne de jia como “suavizante” da cachaça. Foi um sucesso! Os pinguços do Jardim América adoravam a iguaria e a Iracélia adorava ajudar no orçamento da casa. Foi com carne de jia que a Iracélia pôde ir para uma escola particular, a escola da D. Juanita que, ironicamente, ficava bem defronte do canal do Jardim América, lugar de “trabalho” da minha querida amiga. Era lá que ela capturava seu ganha-pão.
Eu mesma provei das jias da Iracélia. Uma delícia, de carne macia e adocicada, muito parecido com carne de frango. A gente comia com grapette, lembra? Mas só serviam assadas porque cozidas eu morria de nojo.
Estou agora olhando a chuva cair e vejo na memória o rosto da D. Matilde, da Iracélia e a saudade me aperta o peito. A memória tem esse poder de ressuscitar lembranças sem a necessidade de rituais
. Esse é o poder que Deus nos deu de ressuscitar o que já foi.

Gotas de Sofia... - O Grande Rival

O maior rival de Deus é a felicidade. Todo ser humano, seja homem ou mulher; criança, jovem, adulto ou velho, todos correm atrás da felicidade. Não é o diabo o grande inimigo de Deus como pregam as religiões, mas algo que o próprio Deus criou e detém. Por que trabalhamos? Trabalhamos ou para ganhar dinheiro ou para nos realizarmos profissionalmente (segundo alguns, o melhor é trabalhar naquilo que se gosta). E com que finalidade se quer ganhar dinheiro ou realizar-se profissionalmente, senão para ser feliz? Por que queremos um cônjuge? Ou por que escolhemos ficar solteiros? Porque temos como certo que o casamento ou a solteirice por opção traz felicidade. Enfim, tudo, mas TUDO MESMO, desde a chupeta quando somos bebê, até o netinho nos braços quando idosos; tudo é correndo atrás da tal felicidade.Vivemos numa busca desenfreada, constante pela felicidade, como sedentos por água num deserto. E somos capazes de tudo para obtê-la. Oh, como somos.E por qual razão a busca pela felicidade é tão decepcionante? Por que é que a cada dia, na vida de cada um de nós, a felicidade tem formato utópico? Será errado querer ser feliz? Claro que não é. Almejar a felicidade é INERENTE ao ser humano. Fomos fabricados para sermos felizes, eis a razão de não aceitarmos o sofrimento, a tristeza, o fracasso, etc..
O problema é que colocamos a felicidade como meta principal do nosso viver, mesmo que não tenhamos consciência disso. Quando a tornamos muito importante, mas muito importante MESMO, os meios de conquistá-la ficam livres de critérios e julgamentos. Para tê-la vale tudo. Desde mentir, enganar, trair, iludir e roubar. O mais irônico em tudo isto é que a felicidade se encontra exatamente onde não a procuramos e está nas mãos de quem ela mais prejudica.
Uma vez, numa sala de aula, um professor perguntou aos alunos o que era mais importante em um navio. Quis saber o que seria ESSENCIAL para um navio navegar com sucesso. Um aluno respondeu que era o motor, pois sem o motor o navio não sairia do lugar, outro discordou e disse que era a equipe de navegação que colocava o motor do navio em movimento; já outro respondeu que era a embarcação em si e formou-se uma grande discussão. O professor pediu silêncio e respondeu que todos estavam errados. O mais importante para que um navio tenha sucesso é o PROJETISTA. Sem ele, o navio nem sequer existiria. O motor, a tripulação, o casco, etc, são resultados do trabalho do projetista. O navio não funcionaria sem nemhuma dessas coisas, mas elas foram projetadas, foram criadas por um projetista e precisam dele para funcionar com perfeição.
Assim é com Deus. Ele é o projetista da vida. A felicidade está nEle; se encontra em Suas mãos o segredo para ser feliz. Com Deus, a felicidade sai do campo da utopia e entra no campo da realidade. Ser feliz não é ter sensações boas, vontade de rir o tempo todo ou viver em ininterrupto prazer, ser feliz é ter paz, é confiar que a vida caminhará sempre para o melhor porque Deus vive dentro de nós. Não é a felicidade que está dentro de nós, e sim, o Autor da felicidade, que vive bem aí dentro de você. Procure-O.
Bem-aventurados os que nisso crêem.


Nota de Sofia: Este é o grupo de oração das sextas-feiras na casa da Neide, em Messejana. Da esquerda para a direita: Fran, Neuma, eu, Neide, Ariane e Jackie.

Thursday, April 05, 2007

Dica de Sofia

Os amantes do Blues não podem deixar de ver o DVD Etta James and The Roots Band "Burnin' Down the House", um SHOWZAÇO gravado no House of The Blues, famoso "antro" de blueseiros.
Com um cenário pra lá de simples, o show só vem provar que não é precisamente necessário um grande cenário para se ter um show de qualidade. Etta James, de forma intensa e emocionante, encanta o público com sua voz que vai muito mais além do podemos imaginar. Indispensável à "DVDteca" de quem se preza por ter bom gosto.

Saturday, March 31, 2007

Gotas de Lágrimas com Ana Beatriz


São as lágrimas que dão à terra o sorriso florido.
A terra, insultada, vinga-se dando-nos flores.
(Rabindranath Tagore)
Nota de Sofia: Olha que coisa mais linda a chorar. É Ana Beatriz. Parece que num gostou muito de estar nos meus braços, não... (rrss)

Gotas de Sofia com Carlos Drummond de Andrade - Beija-Flor


O beijo é flor no canteiro
ou desejo na boca ?
Tanto beijo nascendo e colhido
na calma do jardim
nenhum beijo beijado
(como beijar o beijo ?)
na boca das meninas
e é lá que eles estão
suspensos
invisíveis

Gotas de Sofia com Carlos Drummond de Andrade - Os Homens, As Viagens


O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte – ordena á suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro – diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto – é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com a injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol e dá uma volta
só pra te ver?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e: mas que chato é o Sol,
falso touro espanhol domado.
Restam outros sistemas fora do solar a col-onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo: pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria de con-viver.

Friday, March 30, 2007

Gotas de Sofia com Walt Whitman

Alguém pedindo para ver a alma?
Veja sua própria forma e seu semblante,
Pessoas, bichos, plantas,
Os rios de águas correntes,
As pedras e as areias,
Tudo retém os júbilos do espírito
E os libera a seguir...
Quero fazer poemas das coisas materiais
Pois imagino que esses hão de ser
Os poemas de mais espiritualidade,
E farei poemas do meu corpo e do que há de mortal,
Pois acredito que eles me trarão os poemas
Da alma e da imortalidade.

Wednesday, March 21, 2007

Gotas de Sofia com Chico Buarque - Amando Sobre os Jornais


Amando noites afora
Fazendo a cama sobre os jornais
Um pouco jogado fora
Um pouco sábios demais
Esparramados no mundo
Molhamos o mundo com delícias
As nossas peles retintas
De notícias

Amando noites a fio
Tramando coisas sobre os jornais
Fazendo entornar um rio
E arder os canaviais
Das páginas flageladas
Sorrimos, mãos dadas e, inocentes
Lavamos os nossos sexos
Nas enchentes

Amando noites a fundo
Tendo jornais como cobertor
Podendo abalar o mundo
No embalo do nosso amor
No ardor de tantos abraços
Caíram palácios
Ruiu um império
Os nossos olhos vidrados
De mistério

Gotas de Sofia com Adélia Prado - Anímico


Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoado de todo jeito:
tem do grosso, tem do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asa, é boca, é bico,
é grão de poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
Nota de Sofia: O que amo na Adélia Prado é sua "adega" de palavras. "Insetaria". Que palavra linda! E "arvorinha"? Mais carinhoso, impossível. Ler Adélia é como beber um bom vinho.

Sunday, March 18, 2007

Gotas de Sofia com Emily Dickinson

Alguns guardam o Domingo indo à igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um sabiá como cantor
E um pomar por santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas asas
E ao invés do repicar dos sinos na igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável.
E o Seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final,
Eu o encontro o tempo todo em meu quintal.
Nota de Sofia: Homenagem às minhas manas Neuma e Neide pelas agradáveis noites de sexta-feira. O cheiro e a presença do Amor paira no ar.

Saturday, March 10, 2007

Dicas de Sofia




Saiu pela José Olympio Editora, “Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo”; uma compilação de cartas da pintora, organizada por Martha Zamora.
Nas cartas, Frida deixa clara a ambigüidade de sua personalidade. O leitor, extasiado, descobrirá uma Frida Kahlo frágil e forte; emocional e racional; feminista e submissa.
Como nunca imaginou que suas cartas seriam, um dia, publicadas, a artista mexicana despe-se sem reservas para amigos, amantes e familiares. Imperdível!

Gotas de Sofia com Adélia Prado - O Desbunde

Tinha, como direi, eu, que sou uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma, ou melhor, um derrière esplendido. Não é preciso ser homem pra essas avaliações. Firme em definidos e perfeitos contornos, rebelde ao disfarce das saias e anáguas daquele tempo, inscrevia-se na cara de sua dona, que, movendo os olhos como as ancas, subia a rua em falsa pudicícia, apregoando-se: tenho. Os homens ficavam loucos. Eu era mocinha boba e escutei no armazém do Calixto ele dizer pro Teodoro, meu futuro marido, naquele tempo preocupado em fazer bodoques de goma: eh, ferro! O Vicente não vai dar conta daquela ali, não. É preciso muita saúde. Calixto falava com o Teodoro do que eu suspeitava serem os tesouros da Oldalisa e ela nem aí, toda, sobe e desce rua. Exatamente o que era me escapava, só podia ser coisa de homem e mulher. Felicitei-me por estar viva e participar de segredos tão excitantes. O Vicente era muito magrinho, não jogava bola, não nadava, "não salientava em nada", o Vicente
Cisquim. Pois foi dele que a Raimunda — como o Calixto a chamou naquele dia — gostou. Casaram e tiveram pencas de filhos. O Calixto ficou chupando o dedo. Ser bonitão e dono de armazém não contou ponto pra ele. Pois é, falou o Teodoro, hoje, assim que botou o pé em casa: O que é a tecnologia, hein? Tecnologia? É o avanço da medicina. Teodoro falava era do avanço do tempo. Tou aqui matutando, disse ele, porque a Oldalisa escolheu o Vicente, não tem base. Tô vendo aquela dona pegando as compras no caixa e... Plim! Era ela, a velha senhora. A Oldalisa do Vicente? É. O Vicente estava junto? Não. Estava com duas alianças e um menino, neto dela com certeza. Será que o Vicente morreu da praga do Calixto? Acho que não, porque eu procurei o traseiro da Oldalisa e nada da olda, só mesmo a lisa, magra e murcha. Ter encontrado a Oldalisa expropriada de seu dote mais tentador deixou Teodoro bem filosofante sobre as agruras do corpo. Teria ele também sido um apaixonado da Oldalisa e eu corrido sérios riscos? Porque amor não olha idade, não é mesmo? Agora, daquela do escritório eu não tive medo não, por causa de meus outros poderes, tive inveja. A uma cintura de vespa seguia-se, instruída e fatal, o que a Oldalisa trazia com inocência. Batia à máquina, agarradinha no Teodoro, de saia justa e batom cor de sangue. O apelido dela na firma era Corrosiva, e foi Teodoro quem pôs. Se chamava Rosiva, a perigosa. Imagina o risco que eu corri.
Nota de Sofia: A fotografia acima é de uma escultura de Rodin, "A Jovem Cortesâ".

Gotas de Sofia - "Homocausos" 2

A Praça do Ferreira tava uma ferveção só, de tanta gente. Era um final de tarde de sexta-feira, haveria um show da Leci Brandão, o céu tava um pouco nublado e sem contar que, sendo véspera de sábado, a adrenalina sobe.
Procurei em vão o lugar menos movimentado para ler um pouco e não encontrando, resolvi ceder ao movimento da praça.
Havia uma pequena feira de roupas, enfeites, bolsas, comidas; barracas com corte de cabelo grátis formando filas intermináveis; exposição de fotografias; grupos de terceira idade que chegavam em ônibus particulares e bandos de rockeiros, que, não se sabe porquê, aportaram por aquelas bandas. Sem falar na multidão de homens e mulheres que faziam ginástica ao som de música eletrônica; camelôs, engraxates e o já tão conhecido grupo de aposentados da Praça do Ferreira, com seus semblantes assustados e incomodados pela invasão. A praça parecia que ia explodir.
Já que não iria conseguir ler mesmo, resolvi sentar no lado da praça onde fica o “banco das bichas”. É que a Praça do Ferreira é demarcada, loteada por grupos. Tem o lado dos aposentados, o lado dos pregadores da Bíblia, o lado das bichas e o lado dos “passantes”; gente que simplesmente está só de passagem. Há, democraticamente, banco para todos.
Como o “banco dos gays” (como é conhecido), ironicamente estava longe do “furdunço” e é MUITO mais divertido, sentei perto de um “grupito” que conversava animadamente. Faziam especulação sobre o valor do cachê da sambista Leci Brandão. O “escândalo dos cachês” da Prefeitura de Fortaleza era o assunto mais quente desses dias.
Abri meu livro e fingi ler, mas eu tava mesmo era muito a fim de ouvir a conversa, pois senti que dali poderia sair alguma coisa de interessante. Posso garantir que meu faro foi certeiro.
Chegou um senhor, que notei ser uma “bicha experiente”, que é como eles chamam as de avançada idade, chamado Vidigal e na roda tinha um outro, apelidado de Quartinha, devido ser baixinho e gordinho. O Vidigal ao chegar entrou na conversa e disse:
- Por falar em dinheiro, eu estou com uma pequena empresa especializada em festa para criança. Se vocês souberem de alguém que queira fazer aniversário de criança, é só ligar pra mim! Eu agora sou EMPRESÁRIA, não tenho mais tempo pra ficar vagabundeando na Praça do Ferreira! – disse debochando do grupo.
Bem, antes de contar o final desse diálogo, gostaria de descrever o rosto do Sr. Vidigal. Literalmente parecido com o Fofão, aquele personagem da TV, com cara de leão, monstro, sei lá, que até hoje não se sabe por que fez tanto sucesso entre a criançada. O Vidigal tem umas bochechas enooooormes, um narigão de matar de inveja o Pinóchio e ainda por cima, o pouco de cabelo que havia na sua ainda-não-assumida-careca, era vermelho. Vocês podem imaginar, né?
Então a Quartinha, que do grupo era o mais falante, disparou:
- Quanto tu cobra pra ASSOMBRAR um bando de criança lá no Conjunto Ceará?
O Vidigal “queimou ruim”, o grupo caiu na gargalhada e eu mordi minha língua pra não rir junto. O festeiro infantil “inchou” de raiva, deu uma olhada na minha direção e eu continuei séria, num esforço sobrenatural, fingindo ler meu livro.
- Vai te lascar, bicha cangalha, cafuçú horrorosa, dispeitada...! – perdeu a compostura o pobre do Vidigal.

E saiu afetadíssima.

Nota de Sofia: A foto acima é a Praça do Ferreira, em tardes de calmaria.

Gotas de Sofia com Frida Kahlo - Lembrança

Eu sorrira. Nada mais. De repente, porém, eu soube
na profundeza do meu silêncio
que ele me seguia. Como minha sombra, leve e sem culpa.
Na noite uma canção soluçou...
Os índios se estendiam, como serpentes, pelas vielas da cidade.
Uma harpa e uma jarana eram a música, e as morenas sorridentes
eram a felicidade.
Ao fundo, atrás do "Zócalo", o rio cintilava
e escurecia, como
os momentos de minha vida.
Ele me seguia.
Acabei chorando, isolada no pórtico da igreja paroquial,
protegida por meu xale de bolita, encharcado por minhas lágrimas.

Thursday, March 08, 2007

Gotas de Sofia...- "Homocausos"

Nesses dias, encontrei na Praça do Ferreira o meu amigo Alex, o gay mais antigo de Fortaleza. Com 77 anos, segundo ele, muito bem vividos, o Alex é uma “lenda viva” da terceira idade gay. De vez em quando o encontro nos bancos da praça e faço questão de papear e ouvir suas histórias.
Tem uma história sobre o Alex que ele morre negando, mas os amigos mais íntimos dizem ser absoluta verdade, um “causo” que se tornou lendário.
Nos anos setenta, o Secretário de Segurança Pública do Ceará foi o temido Coronel Assis Bezerra, famosíssimo por criar o COE - uma espécie de polícia dentro da polícia que dava aula de violência e abuso de poder a qualquer polícia do Brasil - e por ser homofóbico assumido. O temido coronel ODIAVA gay. Dizem que a ordem que ele dava aos seus policiai era que, no caso de um homossexual ser preso “primeiro mate, depois pergunte”.
A “bicharada” da cidade tinha verdadeiro pavor ao coronel, que deu ordens aos “seus garotos” do COE para fechar na base da violência (preferencialmente), qualquer estabelecimento que reunisse homossexuais.
Existia em Fortaleza uma barraca na Beira-Mar chamada “Barraca da Vozinha”, o primeiro reduto gay da cidade e que teve um fim quase trágico por mando do coronel. A polícia baixou por lá, espancou tudo que foi de bicha e arrebentou com a barraca, fazendo com que a Vozinha, uma senhora já idosa, proprietária da barraca, vendo tamanha violência, sofresse um AVC.
Pois bem, por causa da homofobia do secretário, o único reduto gay sumiu e a gueiarada passou a fazer festas em surdina, em lugares escondidíssimos. Como tava surgindo o Eusébio, um conglomerado de sítios que havia se tornado o must da cidade, as bichas mais abastadas resolveram realizar os famosos desfiles gays pelas bandas de lá e o Alex foi convocado para ser o apresentador oficial dos tais desfiles.
Conta-se que num desses, com direito a premiar o transformista mais criativo, o Alex, faltando poucos minutos para começar o evento, teve os óculos quebrados. Como vinha acompanhando a organização do evento, o Alex já sabia de antemão quem iria desfilar e o que iria apresentar. É que nosso herói era míope (como ainda o é) e teria que ler o nome das beldades que desfilariam.
O sítio estava lotado. O público se aglomerou ao redor de uma grande passarela onde os transformistas apresentariam suas fantasias. E o nosso querido Alex iniciou o desfile sempre olhando para a porta do camarim de onde saíam os participantes, para ver bem de perto a fantasia que iria ser mostrada.
- E agora com vocês, uma de Carmem Mirandaaaaaaa!!!
E lá veio a bicha cheia de bananas e abacaxis na cabeça, sambando e gesticulando como a famosa cantora, enquanto o sonoplasta (naquela época era sonoplasta, não DJ) colocava na “radiola” “O que é que a baiana tem?”, famoso sucesso de Dorival Caymmi, na voz de Carmem Miranda. Os aplausos estouravam com gritinhos nervosos de “arrasou”, “fechou” e por aí vai.
- E agora, uma de Marilyn Monroeeeeeee!!!! – A galera veio abaixo. Surgiu uma loura estonteante, onde se jurava ser a ressurreição da própria Marilyn.
- E agora mais uma de... Cleópatraaaaaaaa!!!! – E outra vez a galera vinha abaixo.
O Alex vestia um longo preto, todo bordado de lantejoulas (trabalho executado pelo mesmo durante seis meses); calçava sandálias de saltos altíssimos, usava uma peruca de cabelos longos e pretos, e havia caprichado na maquiagem. Pois é... De repente fez-se suspense. Espremendo os olhos para enxergar melhor, nosso apresentador, conhecido como Naynon Morelly, olhou para a porta do camarim que ficava do lado do palco e anunciou:
- E agora com vocês... Uma de guardaaaaa... E mais outra de guardaaaaaaa... E mais outra... E outra... É muita bicha de guarda, gente.... SOCORRO!!!!!... É A POLÍCIAAAAAAA!!!!!
Não deu tempo o pobre Alex correr. Foi agarrado por dois truculentos policiais, enquanto uma confusão de travestis e transformistas apavorados, corria deixando perucas e saltos para traz. O importante era salvar a pele.
Nota de Sofia: Essa figura aí é Alex, o protagonista da crônica.

Sunday, March 04, 2007

Certa vez fiquei na Internet até três horas da madrugada, tendo que levantar bem cedo para ir ao médico e depois para o trabalho. Acordei tarde. Tinha que estar no médico ás 08h e acordei 08h45min. Fiquei revoltada comigo mesma. O estranho é que tive a impressão que passei menos de uma hora na net; quando olhei para o relógio não acreditei: naveguei cinco horas e meia. Incrível! Como a net nos engole, consome nosso tempo sem que percebamos.
Fui ao quarto de minha mãe, abri a porta bem devagar. Ela dormia como um bebê. Meu coração apertou. Mamãe tem 78 anos, eu poderia ficar mais tempo com ela. Chego tarde em casa, sempre tenho algo para fazer após sair do trabalho e o pouco tempo que fico em casa tenho estado na Internet.
Téozinho, um garoto que trabalha comigo, falou que a net é um “empata relacionamento”. É verdade. A net destrói não só relacionamentos com o outro, mas conosco mesmo e com Deus; a net é um “Don Juan virtual”, um templo de adoração a um deus que finge nos dar amigos. Passa a falsa impressão que estamos nos relacionando, quando na verdade, estamos cada vez mais longe um do outro.
No dia seguinte jantei na casa de uma amiga que não a via há dias. Quando a abracei e senti sua alegria por ver-me, percebi quão artificiais são os relacionamentos via computador. O cheiro do arroz, do molho da carne, as risadas na mesa, a alegria de estar junto, o “olho no olho” , são coisas que NUNCA poderão ser substituídas pela Internet.
Não tenho nada contra a tecnologia, muito pelo contrário, facilita a vida, mas não a preenche, não a enfeita, não a completa.
Além de tudo, descobri muitas falhas na net. Encontrei, por exemplo, um texto do Machado de Assis como sendo do Eça de Queiroz, uma biografia do Presidente Lula afirmando ser ele paulista e uma crônica do Arnaldo Jabor como sendo da Martha Medeiros.
A Bíblia diz que não devemos entregar nossa força a estranhos. Tempo é força. A Internet deve ser tratada como uma empresa que nos presta serviço e não como um deus. Ela foi feita para nós, para nos servir, não ao contrário.
Para o caríssimo internauta a frase pode parecer boba, mas a achei verdadeira, apesar de meio infantil. Alguém proseando num banco da Praça do Ferreira – aliás, coisa gostosíssima de se fazer - comentando sobre este assunto, falou, fazendo trocadilhos com palavras: “Prefiro tomar um yogurte com um amigo apenas, contemplando seu rosto, do que ficar no Orkut com mil”.

Saturday, March 03, 2007

Gotas de Sofia com Luis MacNeice - Prece Antes de Nascer

Eu ainda não nasci; vê se me ouve.
Não deixe que o morcego morfético, nem o arminho,
o rato ou o vampiro manco cheguem perto de mim.
Eu ainda não nasci; me console.
Temo que a raça humana me ilhe em altas muralhas,
me abobe com drogas brabas, me tente com mentiras sabidas,
me arreie em paus de tortura, me jogue em banho de sangue.
Eu ainda não nasci; vê se me arranja
água que afague, mato que cresça para mim,
árvores que conversem comigo, céus que solfejem, passarinhos,
e uma clara luz que dentro da cabeça me guie.
Eu ainda não nasci; vê se perdoa
os pecados que em mim o mundo vai cometer, minha palavras
quando me discorrerem, meus pensamentos quando pensarem,
minha traição engendrada por traidores que estão além de mim,
minha vida tão logo eles matarem por minhas mãos e minha morte assim que me viverem.
Eu ainda não nasci; vê se me ensaia
nos papéis que eu tenho que representar e nas deixas
quando coroas me educarem, burocratas me urrarem,
montanhas me fecharem a cara, amantes rirem de mim,
a onda branca me intimar à loucura e o deserto intimar à perdição;
quando o mendigo recusar a esmola que eu der e os filhos me amaldiçoarem.
Eu ainda não nasci; vê se me ouve.
Não deixe que o homem que é uma fera ou que pensa que é deus
chegar perto de mim.
Eu ainda não nasci; vê se me enche
de força contra quem quiser congelar
minha humanidade, me reduzir a um letal autômato,
fazer de mim um dente da engrenagem,
uma coisa com uma cara, embora coisa,
e contra todos os que quiserem dissipar minha integridade
ou me soprar como penugem pra lá e pra cá ou pra cá e pra lá,
como água que retida na mão derramaria.
Não deixem me fazerem de pedra,
Nem deixe que eles me derramem,
Senão é melhor me matar.