Wednesday, December 20, 2006

Gotas de Sofia com Jacques Prévert - Para Pintar o Retrato de um Pássaro

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta.
Pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro.
Depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta.
Esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer...
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir.
Não perder a esperança
esperar...
Esperar se preciso durante anos.
A pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro.
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio,
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel.
Depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar uma única pena do pássaro.
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insetos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar.
Se o pássaro não cantar
mau sinal,
sinal de que o quadro é ruim,
mas se cantar, bom sinal
sinal de que pode assiná-lo.
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.


Nota de Sofia: O poema mostra a criatividade na forma de um pássaro. O poeta ou escritor ou qualquer artista deve libertar a própria criatividade, e a criatividade só é liberta por ela mesma, tendo o artista como canal. Quando isso acontece, quando a criatividade passa por um processo de libertação, só Deus sabe o que poderá acontecer. Nada nem ninguém poderá deter o artista.

Monday, December 18, 2006

Gotas de Sofia...

Já que Teus olhos estão em toda parte,
me diz, meu Deus,
onde é o esconderijo da minha alegria?
Me diz aonde, como criança peralta, ela se esconde?
Em que lugar do meu universo,
em qual recanto do meu tormento
ela brinca de não existir?
Um dia, em pleno mar,
Tu acordaste e acalmaste o vento.
Sou Teu barco!
Desperta de Teu sono e aquieta meu coração aflito!
Desperta de Teu sono e provoca
dentro desse meu conturbado ser
uma tempestade de fé e esperança, meu Deus!

Friday, December 15, 2006

Gotas de Humor com Mário Quintana


Um dia, Mário Quintana se encontrou nos corredores do "Correio do Povo",
onde trabalhou durante tantos anos,
com um dos diretores do jornal.
- Ah, poeta, sabe que eu gostei
muito dos seus versinhos?
Quintana não se abalou:
- Obrigado por sua opiniãozinha...

De Érico Veríssimo sobre Quintana:
"Vou revelar a vocês um segredo: descobri outro dia
que o Quintana na verdade é um anjo disfarçado de homem.
Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casaco,
suas asas ficam de fora".

Thursday, December 14, 2006

Gotas de Sofia com Jacques Prévert - Canção do Carcereiro

Aonde vais belo carcereiro
com essa chave manchada de sangue?
Vou soltar aquela que amo -
se ainda for possível -
e que tranquei
ternamente cruelmente
no mais secreto do meu desejo,
no mais profundo do meu tormento,
nas mentiras do futuro,
nas bobagens das juras.
Quero soltá-la,
quero que seja livre
até para me esquecer,
até para ir-se embora,
até para voltar
e também para me amar,
ou para amar outro
se esse outro lhe agradar.
E se ficar um dia sozinho
e ela só em idas,
guardarei apenas,
guardarei sempre
nas minhas duas mãos côncavas,
até o fim dos dias
a doçura dos seus seios modelados pelo amor.

Monday, December 11, 2006

Gotas de Sofia com Patativa do Assaré

Sem ver as grandes cegueiras
da sua própria pessoa,
vive o homem sempre às carreiras
atrás de uma coisa boa.
Quando a coisa boa alcança,
ele ainda não descansa,
sente um desejo maior,
esquece aquela ventura,
e corre logo a procura
de outra coisa melhor.
Se a segunda ele alcança,
aumenta mais a canseira,
fica sem se conformar
correndo atrás da terceira.
Vem a quarta, a quinta, a sexta,
e ele sendo o mesmo besta.
Correndo atrás da ventura
assim esta vida passa
e o desgraçado fracassa
no fundo da sepultura.

Gotas de Sofia com Rabindranath Tagore - Vem a Mim

Quando o meu coração estiver insensível e árido,
vem a mim com uma chuva de misericórdia.
Quando a vida perder o encanto,
vem a mim com uma explosão de canções.
Quando o trabalho tumultuoso espalhar por toda parte seu ruído, isolando-me do mais distante,
vem a mim, Senhor do silêncio, com Tua paz e serenidade.
Quando meu coração mendigo estiver covardemente encolhido em um canto, invade e vem a mim com a pompa de um Rei.
Quando o desejo cegar minha mente com ilusões e poeira,
ó Tu, Único Santo e Vigilante,
vem a mim com Teu raio e Teu trovão.
Nota de Sofia: Nos momentos mais difíceis da vida, somente Ele é quem pode nos amparar e nos dar a Paz.
O autor da ilustração não foi identificado.

Thursday, December 07, 2006

Minha Pretenciosa Gota de Sofia - É Melhor Esperar

Trabalho no vigésimo andar de um edifício no centro da cidade.
Toda manhã, egoisticamente, desejo encontrar o elevador vazio pois assim subo mais rápido, evitando aquelas paradas em cada andar.
Semana passada consegui. Entrei sozinha e triunfante no elevador, reinando absoluta um reinado de vinte andares.
No terceiro andar a porta se abriu e, para meu desconforto, entraram duas mulheres que resolveram “dar um passeio” de elevador, comentando a frase schopenhauniana de que "o que sobe tem que descer"; no quinto, um homem entrou com uma pilha de revistas. A pilha cobria seu rosto, ele tropeçou e as revistas caíram, adivinha em cima de quem? Já comecei a me irritar. No sétimo surgiu um homenzarrão suado, que pôs a mão na porta do elevador, evitando que a mesma se fechasse, para dar os dois últimos tragos no seu cigarro. Tivemos que esperar, é claro, senão ia rolar uma confusãozinha matinal.. No décimo subiu uma turma cujo serviço é ficar implorando, pedindo pelo amor de Deus aos transeuntes que façam cartão de crédito, então resolveram começar o serviço ali mesmo.

Eu já estava lá no fundo do elevador com dor no pé e comecei a sentir saudade da enorme fila de todas as manhãs. Nesse dia, não sei por que cargas d’água as pessoas que estavam nos andares de cima e iam descer, resolveram subir. No décimo quarto subiu uma turma de estudantes para olhar a vista que dá para o mar e um engraçadinho que estava entre eles, na maior das bagunças, soltou um “pum”. Foi a gota d’água. O sangue me ferveu quando o odor se espalhou no cubículo. Saí sufocada, abrindo caminho, pedindo licença e desci no décimo sexto andar; junto comigo desceu a metade, inclusive o pobre coitado da pilha de revistas, reclamando da falta de respeito, enquanto os “peidões” de plantão ficaram às gargalhadas. Como trabalho no vigésimo andar, subi pelas escadas “fumando numa quenga”, como diz a filosofia cearense.
Nunca mais quis saber de elevador individual.
Às vezes quero fazer a mesma coisa com a minha vida. Quero driblar os dias e os acontecimentos para chegar mais rápido nas coisas que almejo. Não quero ficar na espera e aí dá tudo errado quando quero apressar as coisas e fazer o que bem entendo. Sempre encontro coisas desagradáveis pelo caminho. Eu mesma me torno vítima da minha pressa e egoísmo. Quero que Deus ME atenda logo, não importa os outros, quero ir sozinha e na frente.

É impossível! Temos que caminhar juntos e esperar o elevador da vida abrir a porta para saltarmos no nosso destino, na hora e dia certos. E isso, só Deus é que sabe.

Nota de Sofia: A ilustração é um trabalho fotográfico de Mirna, "Tristeza e Solidão".

Wednesday, December 06, 2006

Gotas de Sofia com Rabindranath Tagore - Segredos do Coração


Meu amigo, não retenhas o segredo de teu coração! Conta-o para mim, em segredo, só para mim. Conta-o sorrindo com doçura, sussurrando macio, e eu ouvirei com o coração e não com os ouvidos. A noite é profunda, a casa está em silêncio, e o sono cobriu o ninho dos pássaros.
Vamos, conta-me com lágrimas vacilantes, com sorrisos tímidos, com estremecida vergonha e dor, conta-me os segredos de teu coração...

Gotas de Sofia com Drummond - Oh Minha Senhora

Oh minha senhora ó minha senhora oh não se incomode senhora minha não faça isso eu lhe peço eu lhe suplico por Deus nosso redentor minha senhora não dê importância a um simples mortal vagabundo como eu que nem mereço a glória de quanto mais de... Não não não minha senhora não me desabotoe a braguilha não precisa também se despir o que é isso é verdadeiramente fora de normas e eu não estou absolutamente preparado para semelhante emoção ou comoção sei lá minha senhora nem sei mais o que digo eu disse alguma coisa? Sinto-me sem palavras sem fôlego sem saliva para molhar a língua e ensaiar um discurso coerente na linha do desejo sinto-me desamparado do Divino Espírito Santo minha senhora eu eu eu oooh minha senhora... esses seios são seus ou é uma aparição e esses pêlos essas nád... tanta nudez me deixa naufragado me mata me pulveriza louvado bendito seja Deus é o fim do mundo desabando no meu fim eu eu...

Nota de Sofia: A ilustração é uma tela de Aurélio D'alincourt

Gotas de Humor com Rubem Alves - O Sábio Bobo da Corte

Conta-se que, numa grave reunião dos ministros de um reino, o rei se embaralhou dando explicações esfarrapadas sobre uma besteira que havia feito (reis e presidentes estão sempre a fazer besteiras, a dar explicações esfarrapadas). Todos os ministros concordavam graves e sérios, com medo de serem demitidos. Menos o bobo que interrompeu a arenga do rei e disse:
- Majestade, há explicações que são piores que uma ofensa.
O rei ficou danado.
- O senhor tem até o fim do dia para explicar-se, sob pena de passar uma semana no calabouço...
O bobo deu uma risadinha e saiu da sala. Ao fim do dia, terminada a reunião, o rei se dirigia sozinho para os seus aposentos, mergulhado em seus pensamentos, caminhando por corredores desertos, cheios de colunas.
Atrás de uma dessas colunas o bobo estava á espera de sua caça. Quando o rei passou, ele saiu de trás da coluna que o escondia e agarrou com força as nádegas murchas do rei. O rei deu um berro enfurecido, e o bobo disse:
- Perdão, majestade, pensei que era a rainha...

Nota de Sofia: A ilustração é uma escultura de Joseph Seigenthaler

Tuesday, December 05, 2006

Gotas de Sofia com Antonio Cícero - Canção Para Paulo


Eu quis fazer um poema
que fosse a fotografia
do meu amor: o problema
é que quando ela sorria,
posava, dizia: "agora"
e a terra se iluminava
toda do lado de fora,
do lado de dentro a lava,
não cabendo mais no centro,
provocava um terremoto
gostoso, tendo o epicentro
em meu sexo, e aí tremia
tudo na hora da foto,
ou melhor, da poesia.

Nota de Sofia: A ilustração é uma tela de Mercedes Morales

Gotas de Sofia com Mário Quintana - Feliz


Deitado no alto do carro de feno...
Com os braços e as pernas abertos em X...
E as nuvens, os vôos passando por cima...
Por que estradas de abril viajei assim um dia?
De que tempos, de que terras
guardei essa antiga lembrança,
que talvez seja a mais feliz
das minhas falsas recordações?

Nota de Sofia: A ilustração é uma tela de Van Gogh, "A Sesta".

Gotas de Sofia com Rabindranath Tagore - Tocar com a Mão

Amigo meu, quando o cansaço do caminho
e a sede no dia abafado caírem sobre mim,
quando as horas sombrias do crepúsculo
jogarem sombras em minha vida,
nesse momento eu não pedirei apenas que me fales,
mas que me toques com a mão.
Meu coração se angustia com o peso dos tesouros
que não entreguei a ti.
Estende a mão através da noite
e deixa-me apertá-la, enchê-la e guardá-la!
Deixa-me sentir seu contato
no vazio interminável de minha solidão.

Nota de Sofia: Para todos os bons amigos.
A ilustração é uma foto de Tom e Chiquinho

Monday, December 04, 2006

Gotas de Sofia com Eduardo Galeano - Teologia


O deus dos cristãos, deus da minha infância, não faz amor. Talvez o único deus que nunca fez amor entre todos os deuses de todas as religiões da história humana. Cada vez que penso nisso, sinto pena dele. E então o perdôo por ter sido meu super-pai castigador, chefe de polícia do universo, e penso que afinal Deus também foi meu amigo naqueles velhos tempos, quando eu acreditava Nele e acreditava que Ele acreditava em mim.
Então preparo a orelha, na hora dos rumores mágicos, entre o pôr-do-sol e o nascer subir da noite, e acho que escuto suas melancólicas confidências.

Nota de Sofia: Apesar de acreditar MUITO em Deus, Sofia não está aqui para "puxar sardinha" pro seu lado, e sim, para conversar sobre a beleza da literatura universal. Eduardo Galeano é grande mas é humano, e coisas importantes podem passar despercebidos, por isso, Sofia também quer chamar a atenção para o fato de que, apesar de toda a sabedoria desse grande escritor, Sofia desconfia que ele nunca leu Cânticos dos Cânticos, o livro mais "poeticamente erótico" da literatura mundial, e Sofia é de opinião que Deus faz amor, sim, e muito, e faz todos os dias, com homens e mulheres. A Bíblia diz que Deus habita dentro do coração daquele que crê e Ele não sai NUNCA, nem mesmo (principalmente) quando um casal apaixonado fecha a porta do quarto. Ao contrário do que diz o autor, o Deus dos cristãos é o único, "entre todos os deuses de todas as religiões da história humana" que não se contenta em apenas ficar olhando lá de longe do Seu trono...

Gotas de Humor com Mário Quintana


Tive um amigo, se não me engano chamava-se Fagundes, o qual, sempre que tinha queixa contra alguém, desabafava: - "Tomara que morra"!
- Cruzes, Fagundes! Isso é coisa que se diga?! - protestava eu.
E ele: - Acha você que ele vai morrer, só por eu ter dito isso? Se ele morrer, será apenas uma FELIZ COINCIDÊNCIA...

Saturday, December 02, 2006

Gotas de Sofia com Rubem Alves - Amar é Ouvir


Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito... A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados à solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato... O ato de falar é um ato masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido... Já o ato de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.
Nota de Sofia: A ilustração é uma escultura de Camille Claudel, "Camille e Rodin"

Gotas de Sofia com Carlos Drummond de Andrade - Canção Para Ninar Mulher


Olha o bicho preto
que vem lá de longe,
olha e fica quietinha.

Olha a lua nascendo
atrás daquela porta.
Tem um gato, um passarinho,
um anel de brilhante,
todos três pra você.

Dorme, que eu te dou
um vestido, um país,
te dou... ah, isso não dou, não.

Dorme que o gatuno
de olho no vidro
e smoking furtado
subiu na parede
para te espiar.

Dorme devagar.

Dorme bem de manso,
senão eu te pego,
te dou um abraço
e te espinho toda.

(Eu não sou daqui,
sou de outra nação,
eu não sou brinquedo)

Dorme na Argentina,
ou no Maranhão,
dorme bem dormido.

Dorme que o capeta
está perguntando
quedê a mulher acordada
pra eu dormir com ela?

Nota de Sofia: A ilustração é uma escultura de Auguste Rodin

Minha Pretenciosa Gota de Sofia - O Queijo Nosso de Cada Dia

Eu tenho mania por gatos. Amo de paixão. Criar gatos torna-se um vício, quero que saibam os iniciantes. Lembro que comecei com um só. O bichano, ainda bem pequeno, miou baixinho na porta da minha casa e foi o bastante. Aquele miado fraquinho, insistente, que dá peninha, mas que tem poder suficiente pra derreter qualquer coração.
Disse a mim mesma que seria somente aquele e o batizei de José Gato de Castro, o Gatinho. Fiquei completamente apaixonada pelo Gatinho, então, pra completar, ganhei a Neve, uma fêmea do pêlo branquinho e olhos amarelos. Vocês podem imaginar no que deu. Hoje, são dezesseis gatos, fora os que já morreram, vítimas da maldade humana; todos com nome, sobrenome e apelido. O Teófilo de Castro, por exemplo, é o Téozinho, a Shanana de Castro é a Shan, a Neve de Castro é a Nevinha, e por aí vai. Bem, diz o velho ditado que cada doido tem sua mania e a minha é gato, com nome, sobrenome e apelido. E tem mais: conheço o miado de cada um.
Quero confessar desavergonhadamente que eles são muito mal acostumados e adoram queijo. Culpa minha. No final de semana, quando faço as refeições em casa, alguns, na hora do café, ficam me olhando com aquele olhar penoso, “pidão”, fixo, implorando por um pedaço de queijo, apesar de estarem cheios de ração. Eles ficam com os rostos levantados, me olhando fixamente, esperando um gesto, um sinal de que o queijo será dado. Não resisto e acabo distribuindo a iguaria para toda a minha gatarada.
Nessa hora, não existe uma vez sequer que eu não lembre do salmo 123, que diz: ”como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos seus senhores (...), assim os nossos olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus”. Do jeito que meus gatos fazem comigo, eu faço com Deus: todas as manhãs quando acordo, através da oração, fito meus olhos espirituais Nele e peço um pedaço do “queijo divino”.

A Bíblia diz que as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã, não fossem elas há muito teríamos perecido.
Igualzinho aos meus gatos, não me contento, quero mais. E da mesma forma que eu não resisto aos miados dos meus gatinhos, Deus não resiste á súplica de um aflito, pode ter certeza.
Sou testemunha viva de que o Senhor é um alto refúgio em qualquer situação, em qualquer tempo.

Nota de Sofia: A ilustração é uma tela da pintora alemã, Paula Becker

Colcha de Retalhos de Sofia - Fragmentos de uma carta de Rainer Maria Rilke ao Poeta Franz Xaver Kappus Sobre a Volúpia

(...) A volúpia carnal é uma experiência dos sentidos, análoga ao simples olhar ou à simples sensação com que um belo fruto enche a língua. É uma grande experiência sem fim que nos é dada; um conhecimento do mundo; a plenitude e o esplendor de todo o saber. O mal não é que nós a aceitemos; o mal consiste em quase todos abusarem dessa experiência, malbaratando-a fazendo dela um mero estímulo para os momentos cansados de sua existência, uma simples distração, em vez de uma concentração interior para as alturas. Até o comer, os homens transformaram em algo diferente: a carência de um lado, o excesso de outro perturbaram a clareza desta necessidade; e todas as necessidades elementares em que a vida se renova tornaram-se igualmente turvas.
O indivíduo, porém, pode esclarecê-las para si mesmo e vivê-las às claras (não todos os indivíduos, demasiados dependentes, mas pelo menos os solitários). Estes podem lembrar-se de que toda beleza em animais e plantas é uma forma silenciosa e durável de amor e desejo; e podem ver o animal como a planta, unindo-se, multiplicando-se e crescendo paciente e docilmente, não por gozo físico nem por dor física, mas curvando-se diante de necessidade maiores que a volúpia e a resistência.
Pudesse o homem acolher com maior humildade este segredo de que a terra está cheia até em suas coisas mais ínfimas; carregá-lo e suportá-lo com mais gravidade, sentindo-lhe o peso, em vez de o tratar com leviandade (...).

Nota de Sofia: Essa maravilhosa visão sobre a volúpia e seu papel na vida do homem lembra um texto do apóstolo Paulo, que diz: "Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas me convém. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas".
Rainer mostra, na carta a Kappus, a distorção humana sobre a volúpia e em como os exageros em tudo que fazemos na vida pode tirar o belo e desviar o verdadeiro papel daquilo que nos é presenteado pelo divino. Ao tratar da questão das plantas e animais, Rainer nos faz meditar que é exatamente o privilégio de sermos os únicos seres racionais e emotivos que nos prejudica, por não sabermos usar essa tão grande benção.
A ilustração é uma fotomontagem de José Luis Sanz, "Marylin Distorcida".

Friday, December 01, 2006

Gotas de Sofia com Dietrich Bonhoeffer - Quem Sou Eu?

Quem sou eu? Com frequência eles me dizem
que saio do confinamento de minha cela
calmamente, alegremente, firmemente,
como um cavalheiro saindo de sua casa de campo.

Quem sou eu? Com frequência eles me dizem
que converso com os guardas
com liberdade, amabilidade e clareza,
como se eu tivesse o poder de mandar.

Quem sou eu? Com frequência eles me dizem
que eu vivo os dias infelizes
equilibradamente, sorrindo, com orgulho,
como quem está acostumado a vencer.

será que sou realmente tudo isso que os homens dizem?
ou sou apenas o que eu próprio sei a meu respeito?
Inquieto, ansioso e doente, como um pássaro na gaiola.
Lutando para respirar, como se mãos apertassem minha garganta,
desejando ver cores, flores, vozes de pássaros,
tendo sede de palavras bondosas, de vizinhos,
aguardando grandes acontecimentos,
tremendo impotente pelos amigos infinitamente distantes,
cansado e vazio na oração, no pensamento, nos atos,
desmaiando e pronto para dizer adeus para tudo?

Quem sou eu? este ou o outro?
Sou uma pessoa hoje e outra amanhã?
Sou ambos ao mesmo tempo? Um hipócrita diante dos outros,
e diante de mim mesmo um fraco, miserável, desprezível?
Ou há ainda dentro de mim alguma coisa como um exército derrotado,
fugindo desordenadamente da vitória já alcançada?

Quem sou eu? Elas zombam de mim, essas minhas perguntas solitárias.
Quem quer que eu seja, Tu sabes, ó Deus, eu sou Teu!


Nota de Sofia: Dietrich Bonhoeffer foi um teólogo alemão que se opôs fortemente ao nazismo, por isso, foi preso e condenado à morte por enforcamento aos 39 anos. Escreveu vários livros na prisão, escondido dos guardas e ajudado por um carcereiro que se tornou seu amigo. O carcereiro recebia seus escritos e os entregava à familia Bonhoeffer. Foi também grande poeta e apreciador das artes plásticas e da música clássica. Na noite de seu enforcamento, um guarda nazista, ao colocar a corda em seu pescoço, disse: - Para você, é o fim, Dietrich - no que ele respondeu: - Não! É apenas o começo!